O luto que vira arte

Cristiano Burlan propõe choque de realidade no denso 'Mataram Meu Irmão'

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2013 | 02h21

Nos últimos anos, Cristiano Burlan tem alternado momentos de euforia e desânimo. "Tem horas em que tenho vontade de desistir. É tão difícil realizar filmes. Entrei num monte de concursos e nunca tive patrocínio. Ou melhor, em 15 filmes, entre curtas, médias e longas, ganhei dinheiro para fazer um curta. Não é um problema só meu. Me dói saber que mesmo um grande como Nelson Pereira dos Santos tem de mendigar por patrocínio. O Nelson!" No caso de Cristiano, os filmes que ele faz não são aqueles aos quais as empresas gostam de associar suas marcas, usando as leis de incentivo. Como o admirável Mataram Meu Irmão, que estreou ontem. O filme, um documentário, foi o grande vitorioso da etapa nacional do É Tudo Verdade deste ano - ganhou os prêmios de melhor do júri e da crítica.

O título não deixa margem a dúvida. Cristiano Burlan debruça-se sobre um episódio de sua vida. Em 1986, a família mudou-se para o Capão Redondo. Ele morou lá por nove anos. Em 2000, mataram seu irmão. O Capão Redondo não é só a periferia de São Paulo. É uma das áreas mais violentas da cidade. "Integra o chamado triângulo da morte com o Jardim Ângela e o Jardim São Luís. É uma área de justiceiros como o Cabo Bruno, o ex-PM que chefiou esquadrão da morte e ficou preso por 27 anos. Libertado no ano passado, foi morto menos de um mês depois.

Mataram Meu Irmão é o episódio do meio de uma trilogia que Cristiano chama de "do luto". Começou com Construção, sobre a morte de seu pai. Ele se pergunta se terá forças para fazer o fecho - Elegia de Um Crime, sobre a morte brutal de sua mãe. Cristiano faz um cinema pessoal. Não saberia fazer diferente. Mas ele rejeita qualquer tentativa de psicologização. "Não filmo por nenhuma necessidade de sublimação freudiana, mas porque minha vida inteira fui tragado pela violência. Tem gente que não acredita que tudo isso tenha ocorrido comigo. Parece romanesco demais."

A morte da mãe, do irmão. Machuca revolver as entranhas. E não é só ele. "São as pessoas ao meu redor. Mas eu não filmo por recompensas, embora esse reconhecimento possa ser gratificante." É, como lhe diz o repórter, uma maneira de as pessoas compartilharem de seu sofrimento. "Não é só o Cristiano. Muitas outras famílias também têm sido atingidas pela violência. Eu uso a ferramenta de que disponho (o cinema) para tentar refletir sobre tudo isso." Cristiano sempre teve dúvidas sobre o desfecho do seu filme, com as fotos do irmão morto. Ele achou que iam cair matando sobre ele, mas o respeitável crítico Jean-Claude Bernardet o serenou ao dizer que aquilo é poesia. Cristiano purifica o irmão ao mostrá-lo crucificado.

O novo filme é uma ficção - Amador. Cristiano Burlan admite que estava em crise. Havia terminado uma união importante - a ex-mulher permanece sua sócia numa pequena produtora. "Ou eu a matava ou fazia um filme. Fiz o meu Oito e Meio." Refere-se ao clássico metalinguístico de Federico Fellini. É um autor apaixonado e apaixonante, Cristiano. O que você vai ver não é fácil. É exigente, e cinema de primeira linha.

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