O lugar onde a música não para

New Orleans se projeta como Meca cultural, com foco na vocação sonora

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

New Orleans está na moda. Tornou-se nos anos 2000 algo parecido ao que São Francisco foi nos anos 60: um Eldorado cultural, uma zona franca de ebulição artística, utopia urbana de paz, amor e música. Refeita completamente da destruição do furacão Katrina, que a devastou em 2005, a cidade recebe hoje cerca de 7,5 milhões de turistas todo ano, que deixam US$ 4,2 bilhões em seus caixas (600 milhões de espectadores desembarcam apenas para o seu mítico festival de jazz, realizado há 40 anos). Para completar o ciclo de orgulho dos "neworleanians", 106 milhões de pessoas viram pela TV o time da cidade, o New Orleans Saints, faturar o primeiro Superbowl de sua história este ano.

Cenário privilegiado de filmes e musicais, a terra de Um Bonde Chamado Desejo (de Tennessee Williams) assistiu à abertura, este ano, em seu Lower Garden District, de um superestúdio de cinema, o Second Line Stages, investimento de US$ 32 milhões. Artistas de ponta, como Simon & Garfunkel (que cobram US$ 1 milhão por show), abrem exceções em suas agendas só para tocar no JazzFest, a festa sem fronteiras que reúne 400 estrelas todo ano. Cultura é o motor dessa onda. "Achamos que a cultura é mais importante que o turismo. É a cultura que entrega o pacote turístico. Então, financiamos a música na Louisiana porque cremos que é necessário para a economia", disse ao Estado Mitch Landrieu, prefeito de New Orleans e vice-governador da Louisiana.

O prefeito estuda um lance ousado: dar isenção fiscal aos empresários que apoiarem a atividade musical. Ele quer expandir os clubes de música para além do French Quarter (o bairro turístico, onde se concentram as boates), com o intuito de criar "uma Meca musical". "Toda vez que se fala em abrir novo clube de jazz em um bairro, a vizinhança começa a ficar nervosa", pondera a cantora Irma Thomas, decana do R&B de New Orleans e uma espécie de primeira-dama da música da cidade. É compreensível o receio: os trompetes & trombones soam ininterruptamente pela noite adentro da cidade. E também pelas manhãs, ruas e esquinas: jams e shows-surpresa pipocam por todo lado, como os da Louisiana Music Factory, mais antiga loja de discos local.

"Mas é preciso criar espaços. Muitos clubes de jazz abandonados após o Katrina não foram reabertos", diz Irma Thomas. Por conta disso, jazzistas engajados tomam a dianteira do poder público e criam sozinhos alternativas. É o caso do trompetista Irvin Mayfield, que se associou ao dono de um hotel na Bourbon Street e abriu o Jazz Playhouse. Ali, ele promove shows de novos artistas que considera excepcionais, como a cantora Johnaye Kendrick e o trompetista Leon "Kid Chocolate" Brown. "Acho que as pessoas passaram a curtir mais a música após o Katrina", diz Terrence Simien, músico de zydeco, ritmo tradicional da região. Simien ganhou o Grammy em 2008. Dados do New Orleans Metropolitan Convention & Visitors Bureau, Inc. mostram que a plateia internacional que mais cresce na região vem do distante Brasil. Segundo Kim Priez, vice-presidente do Bureau, o número atual é de cerca de 40 mil brasileiros e deve chegar a 60 mil em 2012. O incremento turístico gera emprego e renda: só na reforma do Louis Armstrong International Airport serão gastos US$ 400 milhões.

Série de TV. A saga de ressurreição contínua de New Orleans está sendo contada numa série da HBO, Treme, de David Simon (autor da premiada The Wire). Treme (pronuncia-se trúmei) é nome de um subúrbio de New Orleans, famoso pela música e os índices de criminalidade. Protagonizada por músicos reais, como Elvis Costello, Allen Toussaint e o trompetista Kermit Ruffins, a série repisa argumentos contra o governo americano no descaso criminoso como tratou New Orleans durante a tragédia (o prêmio Pulitzer deste ano, ganho pelo site ProPublica, também trata do tema).

A cidade de New Orleans não apenas sobreviveu a essa infâmia, como se converte agora em unanimidade. "Nos interessa, em vez de relações com Washington, ter uma conexão direta com pessoas com expectativas semelhantes da vida e da arte. Queremos gravar aqui com gente como vocês, ir gravar no Brasil. É nossa alma gêmea musical", diz Frank Alquist, dono do maior estúdio de gravações de New Orleans. Na semana passada, ele recebia o celebrado grupo R.E.M. e a Dave Matthews Band. "Eles vêm aqui em busca da atmosfera, da matéria-prima original", avalia.

Discos

Jam session na Louisiana Music Factory, lendária loja de discos de New Orleans (a única que sobrou na cidade), onde os músicos dão canjas entre as estantes de jazz e blues

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