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O longo verão coreano

O neto de Kim Il-sung, mais uma vez, está presente no noticiário com ameaças de apocalipse

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2017 | 03h00

Em julho de 1953, há 64 anos, portanto, era assinada uma interrupção da Guerra da Coreia. O armistício nunca evoluiu para um autêntico tratado de paz. A rigor, a Coreia do Norte e a do Sul continuam em guerra.

O conflito ideológico, militar e de propaganda entre EUA e URSS (Guerra Fria), jamais chegou ao confronto direto, mas se utilizou do terreno alheio para exercitar seus músculos antagônicos. A divisão da Alemanha e da sua vitrina Berlim, as Coreias, o Vietnã e o Iêmen foram alguns exemplos de choques separadores de países. 

Olhamos a história pelo retrovisor do carro do tempo e vemos processos terminados. No período que se seguiu à derrota do Japão, em 1945, as opções históricas estavam abertas e os protagonistas ainda lutavam em torno de modelos e estratégias distintas. No calor do momento, cada ator está agindo sem ver o roteiro completo e desconhecendo todas as implicações das suas decisões. Só as escolhas são livres, as consequências não. O homem histórico está no embate direto, avançando em meio a uma visão limitada pelo jogador à sua frente. Nada sabe do final. Ele sua, defende, ataca e, até o final do segundo tempo, tudo pode acontecer. O historiador vê a gravação do jogo, analisa comentários variados, olha de um ponto alto à frente e substitui a visão do momento por outras interpretações, em diálogo com jogos anteriores que podem magnificar ou diminuir a experiência individual no campo. 

Douglas MacArthur (1880-1964) era o comandante das tropas ONU-EUA na península coreana. Tinha de tomar decisões importantes e, naturalmente, com os dados que eram disponíveis no momento. Seu chefe, o presidente H. Truman (1884-1972), demorou a dar ao conflito coreano uma dimensão exata. O foco estava no Leste Europeu do pós-Segunda Guerra, especialmente Berlim. O avanço do exército de Mao obrigava a uma nova posição de defesa de Taiwan. Isso empurrava os olhos de Truman para outras peças no jogo geopolítico. Havia, ainda, a questão da recente guerra civil na Grécia, que tinha originado a Doutrina Truman e o Plano Marshall. A Coreia era um peão pequeno no tabuleiro do início da Guerra Fria. 

Vamos sair de diante da álgida gravação do jogo e refletir sobre o momento sem o afastamento cronológico de agora. Não existia, em 1950, clareza de quanto a República Popular da China estaria disposta a apoiar o governo norte-coreano. O gigante chinês tinha vivido o trauma duplo de uma sangrenta guerra civil e uma invasão genocida do império japonês. A economia da China continental estava devastada, a fome era um imperativo da população de maioria camponesa. A vitória do Exército Vermelho não tinha representado mais arroz na tigela oriental. Pequim aceitaria ingressar num novo conflito e adiar por mais alguns anos a reconstrução do país? 

A URSS era poderosa aliada dos comunistas chineses e da Coreia do Norte. Os russos mal se recuperavam dos horrores da invasão nazista. O “cordão sanitário” que Stalin criara no Leste Europeu era novo, instável e sofria de deficiências crônicas. A bomba atômica soviética era recente (1949) e ainda incapaz de uma resposta massiva em caso de guerra total. 

A economia norte-americana entrara em uma fase de prosperidade e seu arsenal nuclear era imbatível no início dos anos 1950. Surgiu a nova bomba de hidrogênio, muito mais forte do que as tradicionais jogadas em Hiroshima e Nagasaki. O discurso de Stalin era de superioridade absoluta sobre o Ocidente. Na prática, o georgiano era suficientemente realista para intuir que seu inimigo estava bem situado e forte. Até que ponto o Kremlin iria apoiar seus aliados asiáticos? Ninguém sabia. Como a posição russa foi variando entre 1950-53, seria possível dizer que nem os russos tinham tal clareza. 

As duas Coreias eram dominadas com mão de ferro por governos autoritários. A península tinha sido devastada entre 1910 e 1945 pela exploração japonesa, que saqueou o país e ainda obrigou as mulheres a fazerem parte de um corpo de prostitutas a serviço das tropas do império de Hirohito. Na Coreia do Norte, a ditadura brutal de Kim Il-sung. No Sul, manifestações, greves e atos de violência contra a ocupação ocidental mostravam visões antagônicas e violentas. O governo do Sul, que estava com Syngman Rhee, já tradicionalmente violento, estendeu sua mão de ferro nos Massacres das Ligas Bodo, expurgo e assassinato de coreanos simpatizantes do comunismo. Os italianos lembram com dor o episódio do massacre das Fossas Ardeatinas, quando pouco mais de 300 italianos foram assassinados pelos ocupantes nazistas. Os mais de cem mil mortos das Ligas Bodo são menos conhecidos.

O Japão ainda estava ocupado no início do conflito de 1950. As mudanças impostas pelo invasor vitorioso eram profundas. Faltavam anos para o milagre nipônico alçar voo. O yakissoba, prato mais barato, tinha se popularizado como alternativa à fome. O impacto dos ataques nucleares, da desestruturação da produção industrial e até o valor simbólico da perda da divindade do imperador tinham contornos ainda não visíveis em 1950. O Japão, um dia, se reergueria? O público da gravação do jogo diz: é óbvio! A arquibancada de 1950, até aquele momento, roía as unhas. 

Se MacArthur tivesse lançado um ataque nuclear contra a ofensiva chinesa como desejou, isso teria representado uma vitória rápida no fim de 1950 e 1951 ou teria provocado uma resposta direta da URSS? Se e talvez não produzem história. O presidente Truman tinha outra visão, mas foi necessária uma comissão do Congresso para decidir se o general tinha ou não desobedecido ao poder constitucional do presidente. Insisto para que entendamos o mundo de então com a compreensão dos fatos inacabados e das decisões inseguras e de resultados cediços daquele momento.

A península continua dividida. O Sul prosperou e, após experiências ditatoriais, conheceu prosperidade e democracia. O Norte tornou-se o modelo do Estado totalitário. A guerra começou no verão de 1950 e terminou no mesmo estio, em 1953. Chegamos a uma nova estação quente na península. O estranho neto de Kim Il-sung, mais uma vez, está presente no noticiário com ameaças de apocalipse. É nossa vez de estarmos na arquibancada, roendo unhas e tentando entender, no calor da hora, o desenrolar da partida.

Bom domingo a todos vocês! 

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