O longa quebra o pacto realista com o espectador

Hoje é a história de uma mudança. Com todas as repercussões simbólicas que a palavra 'mudança' contém

O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h10

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

Hoje é a história de uma mudança. Com todas as repercussões simbólicas que a palavra "mudança" contém. Alteração de endereço, sim, mas hora também de reiniciar nova vida, de se livrar de trastes acumulados na casa antiga, momento de olhar para frente. Hora, portanto, de vencer o passado e instalar-se no "hoje" de que fala o título. No presente.

Daí a opção de adaptar o romance de Fernando Bonassi para locação única, um antigo apartamento na Avenida São Luis. Tata deve a Bonassi o texto para seu primeiro filme, aquele que a fez despontar como um dos grandes talentos na época dura da Retomada do cinema brasileiro: Um Céu de Estrelas, filme de 1996. Também em seu filme seguinte, Através da Janela, os personagens pouco saíam à rua. É opção de concentração dramatúrgica, que encontra ressonância nas ótimas atuações de Denise Fraga e César Trancoso, em especial.

Mas há também a inspirada manipulação dos ambientes e da luz, de modo que uma história, passada em locação praticamente única, não se torne repetitiva ou monótona. A diretora conta que o crítico Jean-Claude Bernardet, respeitado pensador do cinema do País, e um dos autores do roteiro, falava sempre em "realidades movediças". O que seriam? Simples. Sempre que a câmera voltava a um ambiente conhecido, ele apresentava alguma alteração, nem que fosse um móvel diferente em relação à cena anterior.

A ideia é que a subjetividade de Vera está numa relação dinâmica permanente. Precisa relacionar-se com o passado, para "fazer seu trabalho de luto" (expressão de Freud), instalar-se no presente e vislumbrar o futuro. Daí a afirmação de que o apartamento é um personagem e não apenas uma locação.

Há também o trabalho fotográfico. Em muitas cenas, as paredes são usadas como telas sobre as quais se projetam imagens. São informações adicionais ao espectador, e juntam, ao realismo de algumas passagens, uma dimensão adicional - a meditação sobre os fatos, as lembranças, as fantasias da personagem. Nesse sentido, o filme quebra várias vezes o pacto realista com o espectador. Propõe algo que sabemos muito bem, mas o cinema às vezes nos nega: na vida, estamos sujeitos às coisas e às exigências do dia a dia, mas somos também afetados por aquilo que vivemos e sofremos.

Memória, em outras palavras. Sem a qual podemos nos perder, mas da qual também podemos padecer, quando ela se torna excessiva e onipresente. Borges escreveu um conto chamado Funes, o Memorioso sobre o homem dotado de memória tão aguçada que não podia pensar, porque era incapaz de esquecer o que quer que fosse.

O passado pode ser um leme; ou pode ser um fardo. Cabe a medida justa para que não vivamos do passado ou nos contentemos com um eterno presente.

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