O local, o nacional e o universal

A Europa tem quase 40 regiões gritando por secessão. Talvez o mapa mude

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2017 | 03h00

Minha cidade natal, São Leopoldo (RS), era um município grande no século 19. Por motivos variados, grandes porções do seu território foram se emancipando e originando outros centros autônomos como Novo Hamburgo, Campo Bom ou Sapucaia do Sul. Origem das secessões? Vontade de uma administração mais próxima dos moradores, punição de um governo estadual contra a cidade, sentimentos locais e interesses de políticos. Em comum, pelo menos para a maioria da população, havia a ideia de que a ruptura com o centro original e a formação de um novo agrupamento dariam início a uma era melhor e mais próspera. 

Ocorreu o mesmo quando São Paulo perdeu áreas sob controle bandeirante, como as Minas Gerais ou o Paraná. A divisão, no caso, atendia interesses de um governo externo aos paulistas que encontrava eco em demandas locais. Pernambuco foi outra área colonial afetada por perdas territoriais punitivas.

Eu vi surgir Mato Grosso do Sul. Depois emergiu Tocantins. Minha geração testemunhou territórios federais virarem Estados autônomos, como Roraima e Rondônia. Nosso paraíso insular, Fernando de Noronha, mudou seu status para integrar-se a Pernambuco. É irônico imaginar que podemos testemunhar a federalização de Estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, por insolvência. 

Por vezes, uma área mais rica e desenvolvida de uma nação quer a independência. Os dados econômicos reforçam a ideia política e cultural de que a região mais avançada está sendo explorada e “carregando” outras nas costas do seu esforço. Desigualdade econômica é solo fértil para discursos racistas. O Norte da Itália pensa em formar uma liga de lombardos sem a porção meridional. A Bélgica, país mais novo do que o Brasil, sofre uma cisão interna e eterna entre duas línguas e dois modelos culturais. 

Quase sempre a discussão é econômica. Também ocorre de ser mais cultural-linguística, como o sentimento do Quebec em relação ao resto do Canadá. Muitos corsos não se consideram franceses de fato, como muitos franceses rejeitavam a identidade do mais famoso filho da Córsega, Napoleão Bonaparte. O Sudão do Sul separou-se em plena e retumbante pobreza. Timor Leste lutou contra Portugal e, depois, contra a Indonésia para garantir sua autonomia. É uma das nações do século 21. 

O Brasil tomou o Uruguai sob o governo do príncipe d. João. A crise nascera na Europa: Napoleão havia invadido a Espanha. A esposa do príncipe português era espanhola e a vingança foi atacar a Guiana Francesa e o Uruguai. Reforçava-se velho sonho colonial iniciado com a fundação da colônia de Sacramento: trazer para o controle lusitano uma das margens do Rio da Prata. Sob d. Pedro I, perdemos a província da Cisplatina. Feliz derrota: poderíamos ter hoje um território com outra língua lutando contra a tirania de Brasília. Poderia ser um “país basco platino” com possíveis atentados no horizonte. 

O tema do momento é a Espanha. A formação do Estado espanhol sob os reis católicos no século 15 não apagou diferenças culturais e linguísticas. O reino de Aragão englobava a atual Catalunha. O casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela, em 1469, integrou as duas coroas. Quando a soberana católica morreu, em 1504, seu marido governou sozinho por um tempo. De alguma forma, o rei aragonês-“catalão” controlava Castela, como um dia o Paraguai invadiu o Brasil e o Tibete atacou a China. A história é dinâmica. 

A integração com casamentos e acordos foi sendo forjada com visíveis sinais de fraturas. Joana, Carlos V, Filipe II e outros diminuíram liberdades locais. Apenas no século 19 podemos falar, de fato, em nacionalismo. Havia identidades e busca de liberdades políticas e econômicas locais. Cada rei que assumia em Madri ou no Escorial fazia juramentos em cortes locais de respeitar tradições regionalistas. Quase sempre isso era desrespeitado. 

Em 1640, rebeldes catalães quiseram aproveitar um momento de fraqueza do império espanhol e declararam guerra aberta. Perderam a luta contra Filipe IV. No século seguinte, um novo rei, Filipe V, reprimiu ainda mais as liberdades locais. Punindo a Catalunha pelo apoio ao “lado errado” na guerra da Sucessão Espanhola, invadiu e tomou Barcelona, eliminando quase todas as veleidades de autonomia. Entre 1713 e 1714, a orgulhosa Barcelona foi submetida ao poder centralizador da nova dinastia dos Bourbons. 

A ditadura de Francisco Franco apertou ainda mais o anel de ferro sobre os regionalismos. Línguas, danças e expressões locais foram reprimidas. Foi um enorme esforço de castelhanização da península. 

Era lógico imaginar que a abertura pós-morte de Franco liberaria os sentimentos de identidade local. Senti isso como: a cada nova ida a Barcelona mais gente falava catalão e menos pessoas utilizavam o espanhol. A bandeira catalã se multiplicou pelas sacadas de Barcelona.

Se a união não ocultava rupturas na prosperidade espanhola recente, na crise econômica que se seguiu ela sofreu fratura exposta. A região catalã é fundamental na economia espanhola. 

O atual rei Filipe VI (neto do conde de Barcelona) fez pronunciamento duro contra o separatismo catalão. O povo de Gaudí não gosta dos pronunciamentos dos Filipes, seja o IV, V ou VI. A Europa tem quase 40 regiões gritando por secessão. Corsos, escoceses, lombardos e gente do Cáucaso olham para as torres da Sagrada Família com esperança profética. O local e o regional estão em alta novamente. Talvez o mapa mude. É uma hipótese. Muito sangue vai correr pelo nacionalismo. É uma certeza. Boa semana para todos nós no nosso talvez unido Brasil. 

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