O Lobo Mau e a Vovozinha

Eu nem poderia dizer que fui apanhado de surpresa. Quando se soube que me caberia entrevistar o escritor português António Lobo Antunes no palco da Flip de 2009, não faltou quem viesse de testa franzida:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2016 | 02h00

– Não queria estar na sua pele. Esse Lobo é o Lobo Mau!

Já tinha ouvido aquela conversa, mas não dera maior importância. Com razoável experiência no ramo, poderia até passar aperto, mas tiraria de letra. Foram tantos, porém, os abutres a grasnar maus presságios, que comecei a pôr em dúvida a minha segurança de perguntador profissional.

Agora, em Paraty, na véspera da encrenca, era eu que franzia a testa. Achei prudente cavar um encontro preliminar com Lobo Antunes, de modo a não correr o risco de subir ao palco com um desconhecido.

Bendita ideia – e melhor ainda a de levar comigo, à guisa de cartão de visitas, um exemplar do meu O Santo Sujo, biografia de Jayme Ovalle lançada na Flip do ano anterior. Numa brecha entre duas entrevistas, na Pousada do Ouro, abordei Lobo Antunes, que me recebeu no limite da polidez protocolar, e lhe entreguei o livro. Foi aí que as coisas começaram a melhorar.

– Jayme Ovalle! – exclamou o escritor, arregalando os olhos azuis.

Acertei mais do que esperava. Ao contrário da maioria de seus colegas brasileiros, Lobo Antunes sabia quem foi Ovalle, e tinha por essa misteriosa figura uma enorme curiosidade. Estava informado de que o autor de Azulão nasceu em Belém – cidade onde o avô do escritor passou uns anos quando jovem. Tomado de genuíno entusiasmo, chamou a mulher, a bela Maria João, nos apresentou, mostrou o livro e, caloroso, me arrastou para almoçar com eles.

Foram duas horas de ótima conversa, da qual participou também o editor Sebastião Lacerda. Maria João contou que ela e o marido acabavam de reatar um casamento encerrado 18 anos antes, depois de ouvir ao telefone “coisas irresistíveis que só o António sabe dizer a uma mulher”. Senti que havia clima para encaixar, muito sério, uma graçola, recebida com gargalhadas:

– Quer dizer que a separação não deu certo?

Mal sabia o que nos esperava a todos, Maria João inclusive, nesse pantanoso terreno conjugal – mas vamos pela ordem, chegaremos lá.

Ao me levantar da mesa, mal conseguia disfarçar a euforia. Está no papo! – pensava. E seguia certo disso quando, na noite do dia seguinte, toquei para a Tenda dos Autores, onde se daria a entrevista, ou melhor, o papo, pois a camaradagem inaugurada na véspera me autorizava a apostar numa conversa solta, sem um pingo de formalidade.

Caminhava rumo ao camarim quando Lobo Antunes veio por trás e me tomou pelo braço, já derramando falação sobre Ovalle, Belém e o avô que lá viveu. A seu lado, sorridente, Maria João contou que o remarido – o neologismo é por minha conta –, noite adentro, dera cabo de 200 páginas de O Santo Sujo, que tem quase 400. Sim, nenhuma dúvida de que o papo estava no papo.

Já no palco, porém, eis que Lobo Antunes põe na cara um ar amuado – e assim permaneceu, rosto apoiado no punho da mão esquerda, enquanto eu me esmerava na apresentação da estrela daquela Flip. Preocupado, tentei dissolver o amuo com os meus melhores elogios – e nada. Será, meu Deus, que o homem é mesmo o Lobo Mau, e que está vendo em mim a Vovozinha?

A preocupação ia virando pânico quando me ocorreu sacar um último cartucho, o da farpada rivalidade que o ligava, em clinch nada literário, quase literal, ao compatriota José Saramago, ainda mais turbinada, de sua parte, depois que o outro levou o Nobel de 1998, a que também ele concorria. E fui para o tudo ou nada, arrematando bruscamente a fala com algo assim: tão grande era o escritor ali presente que seria o caso de perguntar se a Academia da Suécia não teria cometido um erro de português.

Não é que deu certo? Lobo Antunes não só desamarrou a cara como proporcionou ao auditório embevecido um dos grandes momentos na história da Flip. Haja fôlego para tanto aplauso. E ainda ganhei um beijo na testa.

Mais tarde, à mesa de um jantar um tanto formal, Lobo Antunes pareceu sucumbir a uma recaída de tédio. Pouco falou. A certa altura, saiu para fumar e me levou com ele. Esteve por longos minutos em silêncio na porta do restaurante, vendo passar a multidão recheada de moças bonitas.

– Eu não devia ter trazido a Maria João – disse ele de repente, como se falasse para si mesmo, num suspiro em que não houvesse mais que nostalgia de fauno desativado.

Que nada. Dois ou três dias depois, estava nos jornais a foto do escritor sessentão, no Rio de Janeiro, de novo descasado, a sapecar selinho numa brasileirinha de 31, em cujos ouvidos há de ter sussurrado “coisas irresistíveis que só o António sabe dizer a uma mulher”.

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