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Lúcia Guimarães
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O Lobo de Scorsese

Shame on you! (que vergonha!), gritou um roteirista quando o diretor Martin Scorsese saiu do elevador ao lado de Leonardo DiCaprio para encontrar o público de membros da Academia de Hollywood na sessão de O Lobo de Wall Street, baseado no livro de memórias homônimo de Jordan Belfort.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2014 | 02h09

No ano de 12 Anos de Escravidão, o mais poderoso filme sobre a maior ferida da história dos Estados Unidos, os americanos estão consumidos por um escroque do mercado financeiro cuja história foi levada ao cinema com o abandono operático conhecido do diretor de Raging Bull (Touro Indomável).

Pouco mais de cinco anos depois do crash, que causou a pior recessão desde a Grande Depressão, o filme sobre a vida do ex-corretor Jordan Belfort está chocando público e críticos, gente que não se queixou quando A Hora Mais Escura mostrou cenas bárbaras de tortura sancionada pelo governo.

Belfort fundou a corretora Stratton Oakmont, nos anos 90. Em 1998, foi indiciado por fraude e lavagem de dinheiro e dedurou colegas para obter sua sentença de 4 anos, da qual só cumpriu 22 meses. Ele era agressivo na perseguição aos clientes e provocou perdas de pelo menos US$ 110 milhões para 1.500 pessoas. Hoje, Belfort ganha a vida como palestrante motivacional, a atividade inventada neste país onde deveria haver um Oscar amador para embusteiros.

Leonardo DiCaprio obteve os direitos sobre a vida de Belfort numa disputa acirrada com o ator e produtor Brad Pitt, em 2007. DiCaprio descreve seu personagem com um "Calígula contemporâneo", o que pode explicar os vários cortes feitos por Scorsese em cima da estreia para o filme não receber a temida classificação NC-17, que não permite a entrada de menores de 17 anos. Ainda assim, O Lobo é resumido por detratores como 3 horas de sexo, drogas e misantropia. Entre as variadas predileções do protagonista representadas no filme, uma delas é cheirar cocaína depositada num orifício corporal de uma prostituta.

Ficamos sabendo que a plateia numa sessão em Wall Street aplaudiu "nos momentos errados", fato que foi usado para acusar Scorsese de cumplicidade com os personagens. É mais fácil caminhar sobre o gelo que cobriu Manhattan esta semana do que tentar plantar os pés numa discussão sobre a promissória moral de um artista.

"É brutal", admitiu um defensivo Scorsese surpreso com a reação passional ao filme, de um público familiar com a sua obra que é farta na exploração da violência.

Um ruidoso grupo de críticos é formado pelas vítimas de Jordan Belfort, entre eles, gente que teve a saúde ou os meios de sustento arruinados pelo pilantra. Suas histórias não fazem parte do filme. DiCaprio conseguiu produzir O Lobo com financiamento independente e é provável que um grande estúdio exigisse alguma forma de redenção na narrativa. Scorsese é um mestre em nos servir vilões, como ele mesmo diz, sem açucarar. Ele quer que o público goste de seus personagens, ainda que despreze suas ações.

Mas, desta vez, Scorsese parece ter tocado num nervo. Um respeitado crítico como David Denby, da New Yorker, se disse anestesiado pela orgia de excessos, pelo espetáculo burlesco que, de tão barulhento, elimina qualquer possibilidade de indignação com a escória humana que habita a tela. "O Lobo de Wall Street é nojento e obsceno como cinema", disparou. Seu colega de revista Richard Brody se viu compelido a escrever uma segunda resenha para exaltar as qualidades do Lobo de Scorsese. A cena final, em que o próprio Jordan Belfort faz uma ponta, é uma aterradora combinação olímpica de compaixão, desprezo e angústia, argumenta Brody. Ele acredita que o filme não é sobre falcatruas de Wall Street e sim sobre os desejos, a autoindulgência, os jogos de poder e o calculismo da vida num mundo decadente.

Não tenho resposta para o debate sobre O Lobo de Wall Street e confesso minha resistência limitada à violência prolongada na tela, venha ela de um mafioso fazendo justiça com sangue ou de um corretor promovendo um concurso de atirar anões para o ar num escritório. Não tenho pressa de decidir se o filme vai ficar comigo como ficou Goodfellas (Os Bons Companheiros), lançado há 24 anos. Mas tenho uma suspeita: a intensidade da reação pode estar ligada ao momento que o país atravessa. O público americano hoje é muito mais cínico e descrente do que o público de 1990. A evaporação de milhões de empregos, e expectativa da velhice empobrecida, a proteção aos responsáveis pelo crash de 2008 - nenhum deles foi para a prisão, o colapso da responsabilidade política em Washington e a certeza de que as instituições criadas para todos funcionam para uma minoria ínfima podem estar por trás da frustração com o triunfalismo que desfila na tela. No escuro do cinema, o espectador encontra no personagem repugnante e real a impunidade que transformou sua própria vida. E que vai continuar, quando acender a luz.

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