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Luis Fernando Verissimo
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O lóbi

Pronto. Botei todas as minhas fichas no 17. Uma pilha. Agora ou perco tudo ou enriqueço. Bom, talvez enriquecer não. Mas pago minhas dívidas e começo de novo. Estou jogando minha vida no 17. Se não der o 17 eu estou perdido. Vamos lá bolinha. Vamos lá, 17!

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h10

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Quanto tempo a bolinha fica girando na roleta antes de cair num número? Trinta segundos? Quarenta? Parece uma eternidade. Alguma coisa deve determinar em que número a bolinha vai cair. Alguma força invisível, com algum tipo de razão. Não pode ser uma coisa aleatória. Puro acaso. A vida de um homem não pode depender do puro acaso. Seja o que for que te impele, bolinha, por favor: cai no 17. É pedir muito?

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O que move a máquina do mundo move tudo, das marés às bolinhas da roleta. Dos destinos humanos às pragas agrícolas, do que nos aflige ao que nos glorifica, da seborreia ao prêmio Nobel. Neste momento, nestes segundos, em algum lugar, alguma coisa está decidindo onde essa bolinha vai cair. E eu não tenho como influenciar essa decisão. Minha vida depende dela e eu não tenho com quem barganhar, a quem pedir misericórdia, a quem emocionar com minha história, com meu triunfo ou minha ruína. Com a máquina que move o mundo não tem diálogo. Por favor, bolinha!

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Dizem que não existem ateus em trincheiras, bordas de mesas de jogo e filas para apostar na Sena. Incréus viram crentes, agnósticos só faltam cair de joelhos, ateus imploram a Deus, qualquer Deus, para serem ajudados. Eu não acredito em Deus mas tenho certeza que Ele não está sentido com isto. Pô, Deus: 17. Só isto. Dezessete. Basta um sopro na bolinha. Eu estou pedindo que você reparta o Mar Vermelho de novo? Não estou. Só um número, Deus..

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Eu preciso de um lóbi. É isto. Um lóbi que me represente no além. Que fale com as autoridades, defenda minha reivindicação, suborne alguém, sei lá. Quem é que eu tenho lá em cima? Pro meu pai e minha mãe não adianta pedir ajuda. Eles sempre foram contra meu hábito de jogar. Minha mãe ainda me dava um dinheirinho escondido, mas sempre acompanhado de um sermão. Meu pai, então, não queria nem saber. Eles não me ajudariam. Quem? Quem?

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A tia Noca, claro! É perfeita. Eu era o seu sobrinho favorito. E ela era muito religiosa. Se existe um céu, a tia Noca certamente está lá. E deve ter bons contatos, muita influência no meio, conquistada com seus anos de serviços à Igreja na Terra. Talvez tenha até acesso direto ao Homem ou, no mínimo, a gente do seu gabinete. Tia Noca, é com você! A bolinha ainda está correndo pela borda da roleta, ainda nos restam uns dez segundos. Mas aí em cima deve ter outro tempo, aí um segundo deve durar uma semana, aposto. Vai, titia. Descobre quem é o encarregado das bolinhas. Conte como eu sou querido, como eu mereço que a bolinha caia no número 17, como eu sou até capaz de renunciar ao jogo se ganhar. Fazer uma doação à Igreja, me dedicar à caridade e a trabalhos comunitários. Só me consiga esse 17, tia Noca!!!

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Pronto. A bolinha caiu. No número, deixa ver... 26. Certo. Perfeito. Perdi tudo. Eu sei, eu sei, o que move a máquina do mundo e os destinos humanos: nada pessoal. Mas, e agora, fazer o quê? Talvez aceitar o conselho do velho, que sempre me dizia "Experimenta trabalhar". Vou experimentar. E só voltar aqui com o primeiro salário para jogar tudo no 17.

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