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Ignácio de Loyola Brandão
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O livro é uma festa

Até hoje vejo meu pai, aos 70 anos, me surpreendendo no lançamento de 'Zero', em 1975

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2018 | 02h00

Com a camiseta amarela da Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo, o secretário de Cultura daquela cidade, Iury Feres Abrão, veio com a família inteira. Na mesma mesa de Evandro Ferreira e Leo Lama, no café da livraria, vi Euclides da Cunha, sentado, muito magro e sério. Um senhor revelou: “Li o final primeiro. Agora quero ver como o senhor chegou a essa situação”. Os primeiros da fila foram de Araraquara, Maristela Petrili e Pancho, depois Lena Fortes e o marido Haroldo acabados de chegar de minha terra. Traziam um bilhete de Ruth Segnini, minha professora do primário, ainda viva e esperta: “Vejam lá o que o menino anda fazendo”.

Tenho a sensação de que as filas em noites de lançamento me angustiam mais do que aos que estão ali para que eu assine. Mas todos chegavam, sorriam, abraçavam faziam a foto. De repente vejo Eduardo Logullo, com quem trabalhei na Vogue anos e anos, me entregar o livro: “Estou aqui há uma hora e 40”. Logo, o embaixador Rubens Barbosa, fleumático, cavalheiro, companheiro aqui do Estadão, imperturbável. Hora e 40 a duas horas era o tempo para chegar à minha mesa. Fico comovido com tais lealdades. “Que bom! O livro é festa”, alegrou-se a escritora portuguesa Lidia Jorge em e-mail.

Não tenho a memória expandida do Humberto Werneck, mas tais noites têm um quê proustiano. Como a amiga de muito tempo, e ponha tempo nisso. Não nos víamos há uma eternidade. Desafiou: dou um doce se lembrar meu nome. Escrevi Wildi Celia Melhem. Como esquecer? Outra estava me entregando o livro e antes de ver o papel com o nome, estremeci: “Malvina?”. Ela arregalou os olhos azuis: “Sim”. A única pessoa com esse nome de toda uma vida. Amiga de infância em Araraquara, elo perdido há séculos. Conversamos e de repente indaguei: “E a Alair?”. Melhor amiga dela, a moreninha mais linda das festas da Matriz, eu devia ter 10 anos. Diziam dela, a rainha das quermesses. Quando vendia rifas, esgotava sua cota de números num sopro. Quanto gastei do meu dinheiro para as matinês comprando rifa para agradar a Alair. Está viva em Bauru.

Um senhor, jeito bonachão, risinho irônico, caminha lento. Sei quem é, é familiar. Quem? O nome não me vem, só que conheço, quem é? Junto a mim, estende o livro: “Só você me faria sair de casa aos 93 anos e pegar uma fila dessas”. A voz me revelou Mário Glauco Patti, chefe de redação da Última Hora, começo dos anos 60, sujeito divertido, adorava carros, velocidade, dirigiu depois o Autódromo de Interlagos, era o Senhor da Fórmula 1. Ao terminar o “expediente”, saíamos em grupo para o circuito de bares e boates, do Clubinho ao Holliday, Michel, Paribar, Redondo, João Sebastião Bar.

Assim, fui me revendo/revivendo em momentos variados. Crianças com os pais, jovens de 18 anos. E calmos na longa fila, acadêmicos como Ana Maria Martins, 93, que escreve ternas crônicas sobre trens, e José de Souza Martins, 80, que tem a memória profícua sobre São Paulo, suas histórias são eletrizantes, José Gregory, 80 e tantos, conheceu todos os bares que conheci, hoje faz QG no O Balcão.

No meio da festa, um alerta, estavam acabando os livros. Operação de emergência repôs no momento em que era vendido o último exemplar. Este Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela é meu livro número 45. A capa, título preto sobre fundo amarelo, é criação de Thomaz Souto Corrêa que, em 1966, me tirou do jornal Última Hora e me levou para a revista Claudia. Dez dias atrás, me ligaram da editora Global. “Os primeiros exemplares do ‘amarelinho’, estão saindo...” Apanhei um táxi, em minutos fui de Pinheiros à Liberdade, agarrei o romance, voltei ao táxi, folheei, o motorista comentou: “Cheiro bom tem esse livro”. Coisa de quem tem afeição por leitura, é seduzido até pelo cheiro. Fui “lambendo a cria”, não tem autor que não faça isso.

Aconteceu agora, assim como aconteceu às 4 da tarde de um dia de setembro de 1965, quando Caio Graco Prado, da editora Brasiliense, me ligou: “Seu livro está em minhas mãos”. Desliguei e caminhei como Joel Ciclone (esta é para poucos) do Anhangabaú, onde trabalhava, até a Rua Barão de Itapetininga, entrei direto na sala do Caio, ele estava desligando o telefone. Riu abismado: “Já?”. Queria ver o meu livro de contos, Depois do Sol. Meio século depois, minha ânsia continua a mesma, sou igual, o que mudou foi a técnica que adquiri, a experiência, ganhei em ironia. Os lançamentos são diferentes, agora têm a foto, todos fazem selfie. Onde chegam essas imagens? Aquele homem de 29 anos, que percorreu 13 editoras até Caio Graco me aceitar, e este de 82, já sem dificuldades de editar, continua o mesmo na emoção do parto. O polegar direito aguentou firme, saudoso dessa dorzinha aguda.

Noites de autógrafos. A memória afetiva me trouxe não os grandes nomes que me comoveram e me intimidaram ao vê-los à minha frente, como Cacilda Becker a quem dei, trêmulo, o primeiro autógrafo de minha vida, ou Jorge Amado em um encontro na casa dele na Rua Alagoinhas 33, em Salvador. Até hoje vejo meu pai, aos 70 anos, me surpreendendo na porta da Livraria Folhetim, no começo da noite, tendo viajado quase o dia inteiro de ônibus de Araraquara ao Rio de Janeiro, para participar do lançamento do Zero, em julho de 1975.

Sexta-feira passada, certo momento, olhei e vi, ocupando um pedaço de minha mesa, aos risos e estripulias, meus netos Pedro e Stella animados com um jogo, enquanto eu assinava. O outro, Felipe, estava desaparecido entre livros, mas ninguém se perde entre eles. Lucas, o terceiro, não foi, jogava basquete, tomara um dia seja como o araraquarense Rosa Branca, meu amigo que chegou às Olimpíadas de Roma e Tóquio.

Impaciente, ia chamar a atenção de Stella e Pedro, desisti. Uma lembrança impediu. A de um lançamento na Livraria Capitu, Rua dos Pinheiros, final dos anos 70. Duas crianças corriam para lá e para cá, entravam embaixo da mesa, apanhavam e esparravam amendoins e confeitos, olhavam os papeizinhos com os nomes, largavam os copos na mesa, empoleiravam-se a me olhar. Uma senhora sentiu-se incomodada: “Essas crianças não têm um pai ou mãe para ensiná-las a se comportar?”. Levantei os olhos: “Têm sim, o pai sou eu”. Eram Daniel e André, meus filhos, hoje com 46 e 44 anos. A mulher ia saindo de fininho, chamei-a, assinei o livro entre risos. A história se repete. O livro é sempre uma festa.

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