'O livro absorve a luz do ambiente em que é ESCRITO'

O angolano José Eduardo Agualusa é um dos destaques do 3º Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2010 | 00h00

Ao contrário de outras feiras literárias, o Festival da Mantiqueira, que inicia hoje sua terceira edição na cidade de São Francisco Xavier, não tem ambições de crescer despudoradamente. Com a estrutura praticamente idêntica à do início, o evento busca expandir-se na programação. Assim, depois de incluir autores estrangeiros (iniciado no ano passado), o evento agora com autores múltiplos em suas artes, como o escritor e compositor Arnaldo Antunes - além do show de amanhã à noite, ele vai mediar o encontro dos ganhadores do Prêmio SP de Literatura do ano passado, Altair Martins e Ronaldo Correia de Brito.

A lista dos finalistas deste ano, aliás, será divulgada também amanhã à noite, quando serão revelados dez autores veteranos e outros dez que concorreram com seu primeiro livro. "É um grande incentivo aos escritores", comenta André Sturm, coordenador geral do festival. De fato, organizado pela Secretaria de Estado da Cultura, o SP de Literatura oferece R$ 200 mil para o melhor livro do ano e o mesmo valor para o melhor livro do ano de autor estreante.

Na lista de palestrantes (veja no quadro), estão confirmados desde veteranos, como o poeta Ferreira Gullar, a novos talentos, como Carola Saavedra. O destaque internacional é o angolano José Eduardo Agualusa, que lançou no ano passado o romance Barroco Tropical (Companhia das Letras), gestado durante o período em que ele participou de um programa para autores em Amsterdã. Sobre o assunto, Agualusa respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Como foi seu período na Holanda? Foi realmente inspirador?

Estive em Amsterdã no ano passado, terminando de escrever Barroco Tropical. A tradução holandesa do meu romance anterior, As Mulheres do Meu Pai, iria ser lançada por essa altura, e o meu editor insistiu para que aceitasse ficar alguns meses numa residência para escritores, um belíssimo apartamento, no centro histórico da cidade, de forma a promover o livro. Foi uma boa ideia - o livro está em terceira edição - e, além disso, tive tempo e tranquilidade para concluir o Barroco Tropical. Residências literárias, ou bolsas de criação literária, são importantes, e resultam, desde que o escritor possua alguma disciplina.

O que trouxe de novo, durante o processo de escrita, essa imersão holandesa?

Acredito que os livros são entidades orgânicas, capazes de absorverem a luz, o clima, dos ambientes em que são produzidos. Neste livro, em particular, terminei trazendo a própria cidade, e algumas das suas personagens, para a narrativa. No último capítulo, o narrador está em Amsterdã, numa residência para escritores, concluindo o seu livro. É um jogo de espelhos, um divertimento, que creio ter resultado, mas não fazia parte dos meus planos iniciais.

O livro já existia de alguma forma na sua cabeça antes de chegar à Holanda ou surgiu totalmente durante esse período?

O livro já estava bastante avançado. No entanto, eu não sabia como iria ser o fim - nunca sei. O momento mais emocionante, para mim, é sempre o final de um livro, quando todos os pequenos enredos se começam a amarrar, e aquilo tudo toma de repente sentido. Só no fim compreendo o início, isto é, compreendo por que escrevi aquele livro.

Você deve ter notado um crescimento na quantidade de feiras literárias no Brasil. Para um autor, é algo realmente gratificante? Em que sentido?

Sim, acho impressionante. Em primeiro lugar, parece-me indicar um aumento do interesse pelo livro. Há mais leitores hoje, e leitores mais interessados. Leitores que querem compreender o universo dos seus escritores favoritos. A mim, agrada-me o contato com os leitores. Há os que nos criticam um determinado ponto de vista, os que nos dão a ver erros técnicos. Os que nos sugerem histórias. Aprendo imenso com esse contato. Por outro lado, é uma oportunidade de conhecer pessoalmente escritores que admiro.

PROGRAMAÇÃO

SÁBADO

11 h

Prêmio São Paulo de Literatura 2009: Altair Martins e Ronaldo Correia de Brito. Mediação: Arnaldo Antunes.

15 h

A História contada de uma maneira diferente: Ivan Sant"Anna e Leandro Narloch

17h30

Literatura e Poderes: Lira Neto, Fernando Gabeira e

Arnaldo Bloch

DOMINGO

10h30

Biografias: Guilherme Fiuza e Paulo Cesar de Araújo. Mediação: Rubens Ewald Filho

14 h

Ferreira Gullar: Conjunto da obra

16 h

Desejo: José Eduardo Agualusa, Carola Saavedra, João Almino

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