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Sérgio Augusto
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O legado de Schwartz

Quando soube da morte de Lou Reed, a primeira coisa que me veio à memória foi um delicioso brunch dominical no Soho em que nos cruzamos, ele com Laurie Anderson, já lá se vão 15 anos. A segunda não foi (embora devesse ter sido) uma de suas canções, mas o escritor, poeta e crítico Delmore Schwartz, seu ídolo de juventude, seu mentor. Pensei, na época, em escrever sobre o fascínio e a influência de Schwartz sobre Reed, mas afinal favoreci outra pauta, sobretudo em razão da relativa obscuridade do primeiro, entre nós; e se agora retomo o fio daquela meada é porque Schwartz teria feito cem anos no último domingo e porque há pouco a Cia. das Letras lançou a tradução do romance à clef de Saul Bellow, O Legado de Humboldt, inspirado no legado existencial e poético de Schwartz, morto em 1966, aos 53 anos.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2013 | 02h07

Seu centenário passou em brancas nuvens (por que são sempre alvas as nuvens da indiferença?), mesmo na América, onde, nos últimos tempos, apenas Reed parecia se lembrar de Schwartz e reverenciá-lo; além de Bellow, amigo e "biógrafo oblíquo" do poeta, quase que por inteiro reencarnado no escritor de vanguarda Von Humboldt Fleisher.

Na década passada, Romulus Linney evocou a tragicômica amizade de Schwartz com o também poeta Milton Klonsky, numa peça (Klonsky and Schwartz) que pouca repercussão obteve na Broadway. Poucos anos antes, James Atlas publicara uma biografia caprichada do garoto prodígio da Partisan Review, que, se não vendeu o esperado, ao menos manteve vivo o interesse pelo biografado, cuja obra, creio, permanece inédita no Brasil. Sua mais reverenciada criação, o conto In Dreams Begin Responsabilities, há tempos traduzido em Portugal (Nos Sonhos Começam as Responsabilidades), já pode até ser lido no original em versão kindle, num volume com mais sete narrativas curtas, enriquecido de um prefácio de Reed, uma introdução de Atlas e um posfácio de Irving Howe.

"Oh, Delmore, que saudade. Foi você quem me estimulou a escrever. Você foi o maior homem que já conheci. Você sabia transmitir as emoções mais profundas da maneira mais simples." Esse é só o começo do derramado prefácio. Reed considerava Schwartz sua "montanha", sua "inspiração". Adorava seu senso de humor, admirava seu "vasto conhecimento", nenhum outro árbitro literário lhe era tão caro, a ninguém mais devotava tanto respeito. Dos conselhos do mestre, o mais insistente - "Lou, nunca escreva por dinheiro" - foi o que mais empenho exigiu do pupilo. Schwartz vivia em pé de guerra com os vendilhões da criatividade, os artistas que buscam exclusivamente o sucesso financeiro, o agrado fácil.

Tinha apenas 22 anos quando, num fim de semana, escreveu as oito páginas de In Dreams..., freudiana dramatização de um traumático devaneio infantil, cujo protagonista projeta na tela de um cinema o que não viu (a corte de seu pai à sua mãe) e o que não desejava (que os dois se casassem). Ao ser visitado no dia seguinte pelo filósofo William Barrett, Schwartz ainda estava "em estado de beatitude", convicto de que criara uma grande peça literária, opinião posteriormente compartilhada por quase toda a intelectualidade do país. Era um dos contos favoritos de Nabokov.

Considerado o talento mais promissor de sua geração ("um gênio", na avaliação de Alfred Kazin), nem tinha ainda 25 anos quando sua poesia, também admirada por Eliot e comparada a Auden, chegou às livrarias antes dos versos de Robert Lowell (um de seus maiores amigos e rivais), John Berryman e Randall Jarrell. Exagerou na ambição ao compor Genesis mirando os Cantos de Pound e A Terra Devastada, de Eliot, e na onipotência ao traduzir Rimbaud (Uma Temporada no Inferno) sem o uso de um dicionário de francês, língua com a qual não tinha a menor intimidade. Seu maior legado acabou sendo a ficção curta e os comentários críticos que logrou concluir entre um porre e outro. E sua vida, é claro.

Reed insistia que seu mestre não era alcoólatra, apenas maníaco depressivo. Dezenas de outros testemunhos, notadamente de contemporâneos mais chegados, como Dwight Macdonald, Lowell e Philip Rahv (fundador da Partisan Review, primeira vitrine de Schwartz), não corroboram essa visão. Fulgurante presença no circuito cultural nova-iorquino, grande orador, causeur e mímico (tinha um número em que imitava um hipotético encontro com Eliot), foi, num certo período, a maior glória da intelligentsia judaica, o precursor de Malamud, Bellow, Roth & cia. Bipolar etílico, paranoico e briguento, pirou de vez num hotel furreca da Times Square, onde um infarto interrompeu seu solitário calvário psíquico na madrugada de 11 de julho de 1966. Seu corpo (o cérebro devastado por gin e anfetaminas) só foi encontrado três dias depois.

O avatar imaginado por Bellow só se diferencia de Schwartz em ínfimos e pouco relevantes detalhes. Humboldt, primus inter pares da geração nascida em plena Primeira Guerra Mundial, é um sujeito grande, bonito, charmoso, leal, sério, espirituoso, culto, simpático, inconstante, profundamente compenetrado e maledicente. Insuperável conversador ("um Mozart do papo") e radical defensor da arte sem amarras comerciais, também "viveu com paixão o tema do sucesso e morreu como um fracasso", numa espelunca perto da Times Square. Seu In Dreams Begin Responsabilities são as Baladas de Arlequim, igualmente publicadas em 1938.

Sua história é narrada por Charles Citrine, Bellow sem disfarces. Depois de ler In Dreams..., na Universidade de Wisconsin, Bellow pegou o primeiro ônibus para Nova York, atrás de Schwartz. Conheceram-se em Greenwich Village e estreitaram amizade em Princeton - sem tirar nem pôr, o que acontece entre Citrine e Humboldt. Bellow aproveitou-se bem de todas as baixarias e surtos de paranoia de Schwartz, sem apelar para o exagero, e fez um dos relatos mais vigorosos sobre a dificuldade de ser artista numa sociedade mercantilista como a americana.

Antes que me esqueça, no final do século passado, o dublê de crítico de cinema e romancista David Thomson imaginou um caso entre Schwartz e Ilsa Lund, a personagem de Ingrid Bergman em Casablanca, ela já exilada na América e separada de Victor Laszlo. Fariam um par no mínimo curioso. Segundo Thomson (leiam Suspeitos, traduzido pela L&PM), uma estrofe de Vaudeville For a Princess teria sido escrita em homenagem a ela.

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