O legado de Pagnol

Triviais na aparência, tramas ganham força sob a direção de Claude Berri

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h06

Quando Marcel Pagnol tinha 13 anos de idade, um camponês da sua Provence natal lhe contou a história de Manon. Uma espécie de figura lendária da região e protagonista de uma história envolvendo cobiça, amor e vingança, Manon teve a sua saga levada para o cinema pelo próprio Pagnol em 1952. Dez anos depois, insatisfeito com o resultado, Pagnol teve vontade de contar, por escrito, a história de Manon e de seu pai. O desejo deu origem a dois dos romances mais populares da França na segunda metade do século 20 - Jean de Florette e Manon des Sources, díptico reunido sob o título de L'Eau des Collines (A Água das Colinas).

Assim, ao contrário de ser uma adaptação de romance ao cinema, as histórias de Jean de Florette e Manon tiveram origem no cinema e, apenas depois, se transformaram em romances. Adaptação houve por parte de Claude Berri, já em meados dos ano-s --80, quando levou de volta para o cinema os dois romances populares de Pagnol. Os filmes são agora lançados numa caixa em DVD pela Versátil sob os títulos de Jean de Florette e, sua continuação, A Vingança de Manon.

Pagnol foi um perfeito dublê de cineasta e romancista, embora hoje seja lembrado mais como escritor do que por seu trabalho por trás das câmeras. Mas deixou uma filmografia intrigante, na qual as relações entre cinema e teatro são problematizadas. A Mulher do Padeiro era um filme intensamente admirado por Orson Welles, o que não é pouca coisa. Ganhou um estudo de André Bazin, intitulado Le Cas Pagnol, no qual o guru da turma da nouvelle vague estuda precisamente esse caráter híbrido do seu cinema.

Em todo caso, méritos e deméritos à parte, Pagnol é considerado o introdutor do sotaque meridional no cinema francês, no sentido próprio e no figurado. Seu regionalismo orgulhoso é um canto de amor à Provence num país centrado em demasia em Paris. Berri, ao adaptar os livros do antecessor, não contraria essas convenções. Pelo contrário, as aprofunda: um dos prazeres proporcionados pelo filme é a combinação das belas locações nas colinas de Aubagne, com sotaque meridional acentuado dos personagens, em contato visual como sonoro com a França profunda.

Diga-se de passagem: Berri é mais respeitado como produtor do que como cineasta. É conhecido por sua mão pesada ao dirigir. No entanto, em Jean de Florette e em A Vingança de Manon, exibe leveza e solidez insuspeitadas. Como se tivesse ficado particularmente inspirado pela riqueza do material que tinha em mãos. Outro mérito: escalou um elenco de primeiríssima qualidade.

Vejamos: Yves Montand é César Souberayn, remanescente de uma família poderosa da região. Daniel Auteuil faz Ugolin, sobrinho de César. Gérard Depardieu é Jean de Florette, o idealista da cidade que tenta cultivar uma terra estéril. Sua filha, Manon, quando crescida (e muito bem crescida), será interpretada por Emmanuelle Béart. A trama é toda ardilosa. Ugolin deseja cultivar cravos em suas terras. O tio quer que ele tenha sucesso e se case, para dar continuidade ao clã dos Souberayn. Mas, para isso, precisam da nascente, que fica em terras alheias. Terras que, por azar, foram herdadas por um obstinado Jean de Florette, criado na cidade, corcunda, inteligente e simpático a todos. Ou quase todos. Mas, mesmo simpático, será sempre um forasteiro e assim todos silenciam quando for preciso convencê-lo de que sua terra é estéril para que ele a venda por preço vantajoso.

Eis aí a trama rural, concreta em sua simplicidade. Tudo o que a move é a água, ou melhor, a sua escassez. Mas que se desdobra num drama de paixões, inveja e culpa coletiva. É uma bela narrativa cinematográfica.

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