O legado de Chamberlain

Escultor que usava sucata de carros é inspiração para reciclagem artística

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h08

O legado do escultor norte-americano John Chamberlain, que morreu na quarta-feira, aos 84 anos, em Nova York, de causa não revelada, impressiona. Não se fala do valor de suas obras feitas de material reciclado - algo em torno de US$ 4 milhões -, mas da escola artística inaugurada por ele. Exemplo disso é a pomba da paz que a revista Colors, publicada pelo grupo Benneton, oferece hoje à cidade de Trípoli, na Líbia, uma escultura feita de 15 mil cartuchos de balas disparados que foram recolhidos nas zonas de guerra (leia texto abaixo) em todo o mundo.

Chamberlain começou sua carreira nos anos 1950, no auge do expressionismo abstrato. Formado no Black Mountain College, sua atração pelas cores dirigiu seu olhar para cadillacs cuja exuberância cromática levou o artista a amassar carcaças de automóveis, transformando-as em esculturas. Com a metaforização desse gesto pelos críticos, ou seja, por causa das associações feitas entre a reciclagem do material e um comentário político sobre o custo da liberdade na América, ele passou a usar outros materiais para esculpir.

Chamberlain passou sua vida tentando explicar que suas esculturas não comportavam conteúdos alegóricos. Eram apenas carros amassados e coloridos que o ajudavam a derrubar a fronteira entre categorias, especialmente entre a pintura e a escultura. O artista costumava brincar com seus interlocutores ao definir o que era para ele uma escultura - segundo Chamberlain, "uma coisa que, quando cai no seu pé, o quebra". É o tipo de comentário que faziam os artistas pop nos anos 1960, embora ele tivesse mais afinidade com a turma do novo realismo francês, no sentido de que também ele via o mundo como uma imagem da qual podia tirar partes e incorporar às obras, como a carcaça de seus automóveis, conservando a autonomia desses fragmentos, que, de modo geral, ditavam a composição do trabalho.

Após sua participação na Bienal de Veneza, em 1964, a carreira de Chamberlain incorporou outras formas de expressão, como o cinema. Ele chegou a dirigir um filme, A Vida Secreta de Hernando Cortez, em 1968, rodando no México uma história mirabolante que era apenas pretexto para mostrar cenas de nudez e malabarismo sexual.

Por sorte, ele mesmo reconheceu não ter talento como cineasta e voltou à escultura nos anos 1970, construindo obras que adotavam a monumentalidade de David Smith como modelo. Foram peças em plexiglas e alumínio que ele mostrou numa primeira retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York naquele ano. A instituição está programando uma nova retrospectiva para fevereiro de 2012.

Chamberlain participou de duas edições da Bienal de São Paulo (em 1961 e 1994). Recentemente, a galeria Gagosian, em Nova York, firmou contrato com o artista, representado nos principais museus dos EUA.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.