O lagarto e o pastor

Duas dinamarquesas conversavam à beira da piscina de um hotel fazenda em Araraquara; falavam e apontavam para o alto, onde as folhas de uma palmeira imperial pareciam tocar as nuvens.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Claro que não entendi uma palavra da conversa, mas intuí que as escandinavas estavam fascinadas pela altura da palmeira, cujo tronco afinava sutilmente em direção ao topo. O exato desenho da palmeira é mais um mistério da natureza. Deixei a Dinamarca e andei pela antiga fazenda de café, visitei seu modesto museu, onde vi máquinas incríveis, que datam da primeira revolução industrial em São Paulo; depois entrei na tulha, na capela e imaginei um cafezal no horizonte onde, hoje, só se vê cana e laranjeiras.

Ia dormir num quarto onde haviam dormido colonos da antiga fazenda, um quarto modesto, com um abajur pequeno demais para quem quer ler. Quando voltei para o gramado, as dinamarquesas ainda conversavam com a palmeira; de repente uma delas deu um grito, e esse som eu entendi, porque o grito é universal. A pobre mulher estava paralisada diante de um lagarto enorme, que saíra de sua toca e agora tentava rastejar, mas as patas escorregavam na lajota lisa. A outra dinamarquesa puxou sua amiga pelos braços, ambas correram com passos de viking e, em poucos segundos, as quatro pernas alcançaram a capela no outro lado do hotel.

Temi pelo réptil assustado, um pobre réptil brasileiro, que nascera e crescera no sertão paulista. Agitava com rapidez e nervosismo o rabo, em gestos alucinantes de defesa. Tentei acalmá-lo, mas ele se apavorou, deslizou na lajota, caiu na piscina, mergulhou, nadou bravamente e foi vencido pela exaustão. Era um lagarto velho e obeso, que ia afogar-se na água clorada. Com um galho, ofereci-lhe ajuda. Aceitou. E quando o trouxe de volta à terra firme, ele me encarou com olhinhos tristes. Era um teiú-açu, tão presente na minha infância. Enquanto eu observava o dorso molhado, da cor de mármore encardido, me lembrei das brincadeiras nos balneários de Manaus, das moças que morriam de medo dos camaleões que se confundiam com a folhagem e, num átimo, chispavam entre pernas morenas. Recordei por algum tempo essas pernas, que agora eram reais, tão reais que quase podia tocá-las. O lagarto ainda me encarava tristemente, talvez soubesse que a existência dele me conduzia a um passado distante.

Então me afastei do réptil envelhecido, entrei no quarto, peguei um livro e sentei na cadeira da varandinha. Retomei a leitura de um romance, o mesmo que havia lido em 1973 ou 74; agora parecia outro livro, porque 36 anos é tempo suficiente para criar um outro leitor. A leitura avançava lentamente, a zoeira dos pássaros não me incomodava, a loucura do personagem pregando no púlpito de igrejas no Sul dos Estados Unidos era verdadeira, ou assim parecia. De repente a realidade interrompeu a imaginação: uma voz estridente surgiu do quarto de um hóspede: a voz de um pastor pregando num programa de tevê. Bradava palavras rancorosas contra o Demônio, o próprio pastor parecia possuído, mas seu transe soava muito mais falso e superficial do que o do personagem.

Pedi ao hóspede para que diminuísse o volume do som ou fechasse a porta do quarto, mas o homem me ignorou. Fechei o livro e fui ao encontro do lagarto: permanecia no mesmo lugar, talvez traumatizado pelo mergulho na piscina. Ergueu a cabeça para mim, conversamos em silêncio, ou pensamos coisas distintas. Ele, ainda ofegante, talvez sonhasse com a paz em sua toca. Eu apenas recordava pernas assustadas e belas na margem de um rio de águas límpidas, numa época em que não se viam pastores na tevê e todos nós podíamos pecar e ler sem ouvir insultos contra o Diabo.

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