"O Ladrão de Frutas" relembra os árduos anos 60 numa bricolagem acrobática

A inspiração: um livro do escritor italiano Ítalo Calvino sobre a revolução francesa, e a história de um menino do bairro paulistano do Butantã, que decidiu viver em uma árvore. A referência: jovens militantes dos anos 60, e elementos da técnica circense do mastro chinês. Juntar todos estes elementos em uma peça de teatro já seria difícil, mas ainda assim a Cia. Circo Mínimo leva O Ladrão de Frutas aos palcos do Sesc Anchieta, em São Paulo, tendo ainda a ambição de retratar a resistência à ditadura militar que comandou o país naqueles tempos. O assunto é sempre tratado com cuidado - mesmo por sobreviventes da repressão -, mas a responsabilidade parece não incomodar o diretor Rodrigo Matheus, nascido em 1962. Assim estréia a montagem, no incômodo horário das 16h, neste sábado (14), tentando dar a sua versão dos revolucionários anos 60, para a geração que nasceu próximo dos 80."A escolha de falar sobre a ditadura para juventude não foi proposital, para mim era natural que se a gente falasse dos anos 60, teríamos que falar da ditadura. Mas é só uma passagem do espetáculo, o mais importante é contar uma fábula moderna de um personagem apaixonado e idealista", afirma o diretor Rodrigo Matheus, que além da formação circense no Circo Escola Picadeiro e na Fool Time Circus Arts da Inglaterra, ainda arrematou um prêmio de público no Fringe Festival de Edimburgo, em 1999. A história foi inspirada no livro Barão das Árvores, de Ítalo Calvino, e na notícia publicada no jornal O Estado de S. Paulo, sobre o garoto Bruno, de 9 anos, que brigou com a família e foi morar em uma árvore, no Butantã. A história deste personagem leva o espectador a acompanhar a transformação de um menino em homem, o surgimento de um herói - um Don Quixote adolescente -, e o período de transformações na história de sua cidade. O texto foi desenvolvido no processo de montagem da peça com os atores, mas as linhas finais levam a assinatura do dramaturgo Marcos Damigo. O circo parece ser a parte mais intrigante da montagem. O espaço cênico é suspenso, três mastros sustentam uma enorme teia de cordas e tecidos que servem de palco e cenário ao mesmo tempo. A árvore onde o Bruno sobe acolhe todos os personagens e seus conflitos. "A intenção de colocar os atores no ar é para criar o ambiente da história. O ´perigo´ vivido pelos atores é o mesmo vivido pelo personagem, dando assim substância ao radicalismo de sua decisão", revela Matheus. O mastro chinês é uma técnica circense milenar, com a qual eles constrõem sua "árvore". Ela consiste em utilizar um ou mais canos fixos verticalmente para formar figuras geométricas.Foram 11 meses de ensaios e treinamentos para conseguir formar a equipe de dez atores e atrizes que encenam a peça. "Deles, apenas quatro tinham algum tipo de experiência anterior com o circo". O perigo para quem é pouco treinado é considerável: o ponto mais baixo da "árvore" tem cerca de dois metros de altura, e seu cume é próximo ao teto do teatro do Sesc Anchieta. A preparação incluiu aulas de capoeira com Clô Mudrik e de técnicas circense com o próprio Rodrigo.Em determinado momento da trama, o personagem é levado para o seu lado mais político. "Desde de que eu li o livro do Calvino eu imaginei o personagem como um Che Guevara. Com uma atitude tão radical que as autoridades começam a se incomodar", diz Rodrigo. "Eu não sei até que ponto isso não pode ser uma projeção minha da adolescência, já que eu sempre fui muito idealista". Ele viveu os terrores da repressão dentro de casa quando a sua mãe foi exilada enquanto ele ainda era adolescente. "Minha mãe era da Aliança de Libertação Nacional (primeiro grupo de guerrilha urbana liderada por Carlos Marighela), dirigia os veículos para assaltar os bancos. Em uma das ações um militante foi ferido e levaram ele para o apartamento dela. Por causa disso, ela logo soube que a descobririam e fugiu do Brasil. Todo meu imaginário adolescente veio da ausência da minha mãe, e ao mesmo tempo do convívio com esse ideal político", conclui.Ladrão de Frutas - A partir de 14 de outubro, às 16h. Até dia 17 de dezembro. Sábados e domingos, às 16h. R$ 12,00 e R$ 6,00 (trabalhadores no comércio e serviços e estudantes). Duração: 80 min. Recomendável para maiores de 10 anos. 328 lugares. Teatro SESC Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel: (11) 256-2281

Agencia Estado,

14 de outubro de 2000 | 00h38

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