O lado teatral de Munch

Os 150 anos de nascimento do pintor norueguês são comemorados em mostra e peça

ANTONIO GONÇALVES FILHO, ENVIADO ESPECIAL / OSLO, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h17

Por ocasião da mostra Edvard Munch, l'Oeil Moderne, realizada há dois anos no Centre Pompidou, em Paris, o curador Clément Chéroux observou que o olhar do pintor norueguês não incorporava apenas as lições experimentais do século 19 - o impressionismo, a utilização da 'camera obscura' - como antecipava um modo de ver o mundo extremamente moderno em suas composições. Nelas, melancólicos personagens parecem confrontar a câmera como no cinema do sueco Bergman. Pois a retrospectiva norueguesa em homenagem aos 150 anos de nascimento de Munch - no museu que leva seu nome e na Galeria Nacional de Oslo - amplia o estudo da relação da arte do pintor com outros meios, especialmente o teatro e a literatura. Sem as telas de Munch provavelmente alguns dos personagens de Ibsen não teriam existido, como comprovam muitas obras raras vezes expostas ao público, mesmo na Noruega.

Embora não seja o foco da retrospectiva, a aproximação de Munch com as artes cênicas ganha relevância na mostra de seus 150 anos. Há, por exemplo, o esboço do cenário de Espectros, têmpera sobre tela não preparada pintada em 1906 por encomenda do diretor Max Reinhardt, fundador do Berliner Kammerspiele. O pedido de Reinhardt era preciso: queria um cenário despojado, em que cada peça do mobiliário fosse capaz de definir, de modo sintético, os cinco personagens da peça. Munch não tinha lá grande experiência teatral. Sua contribuição na área se limitava, então, a programas para dois textos de Ibsen ligados à escola simbolista (Peer Gynt, de 1896, e John Gabriel Borkman, escrito um ano depois). Espectros era outra coisa: tratava de amor livre, infidelidade conjugal e sífilis hereditária. Era, em síntese, uma tarefa pesada para o pintor, já atormentado pelo álcool e consumido pela misantropia.

A ânsia de autoconhecimento (e recolhimento) de Munch está expressa nas dezenas de autorretratos reunidos na mostra (o melhor deles reproduzido na foto maior desta página), mas é o modo singular como busca uma correspondência analógica entre pintura e literatura que desperta no visitante da retrospectiva a suspeita de estar diante de um escritor paralisado diante do gigantismo literário de Ibsen, 35 anos mais velho. Eles não foram propriamente amigos, mas Munch forneceu ao dramaturgo modelos para seus personagens, se considerarmos que Ingrid, a filha do rico fazendeiro de Peer Gynt, foi inspirada na mulher fatal da tela Cinzas (1895), reproduzida acima, na foto menor. Munch chegou mesmo a dizer, numa entrevista de 1897, que tudo o que se via em suas pinturas nascia de um manuscrito.

O fato é que Munch é um pintor literato tanto como Ibsen é um escritor visual. Ibsen queria ser pintor (e ele admitiu isso), como Munch desejava ser escritor. Os encontros ocasionais dos dois em Oslo renderam, sem dúvida, algumas das pinturas "teatrais" que estão na retrospectiva. O Museu Munch abriga pelo menos 500 obras de Munch consideradas diretamente relacionadas à obra do dramaturgo que revolucionou o teatro norueguês com peças como Hedda Gabler (1890), sobre o papel da mulher na sociedade, ou Um Inimigo do Povo (1884), crítica ao liberalismo e aos mecanismos de pressão social sobre o indivíduo.

Nos 150 anos de Munch, a sua estreita relação com o teatro é explorada não só na retrospectiva (que traz esboços de telas, desenhos e gravuras relacionadas a Ibsen) como fora dela. A companhia teatral de Jo Strømgren montou O Pintor, teatro de bonecos que narra o encontro fictício de Munch e Van Gogh. O compositor Ketil Bjørnstad compôs a cantata Aurora, inspirada por textos de Munch. O tema não poderia ser outro: a percepção destrutiva e a reconciliação com a vida. De certo modo, a imagem que resume essa relação dicotômica é a tela Três Meninas da Ponte, 1892), reproduzida acima, em que uma garota, triste mas resignada, se recusa a olhar a água, mas aceita o fluxo do rio.

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