Andrew Medichini/AP
Andrew Medichini/AP

O lado solar das Filipinas

Mas a violência do país de Brillante Mendoza também aparece em 'Thy Womb'

LUIZ ZANIN ORICCHIO , ENVIADO ESPECIAL, VENEZA, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h08

Com Thy Womb o filipino Brillante Mendoza deixa seu hábitat natural, Manila, e vai buscar inspiração nos confins do sul do seu país. Na ilha de Tawi Tawi, os habitantes, os bajaus, são conhecidos como "ciganos do mar". Vivem se deslocando, moram em palafitas e sobrevivem da pesca artesanal. A fé dominante é islâmica. Mendoza põe foco sobre um casal muito simpático. Ambos pescadores, mas ela também parteira. Aliás, o filme começa com um parto. Real. Acontece que a parteira (vivida pela atriz Nora Aunor) ajuda as crianças a virem ao mundo, mas não pode ter os próprios filhos.

Assim, consente que o marido tome uma segunda esposa, mais jovem, que possa dar a ele o filho desejado. O problema será juntar o dinheiro do dote e achar a eleita. Haverá, no futuro, um problema com o qual ela não contava.

Esse é o fiapo de trama num filme de vocação documental e etnográfica. "Mesmo nas Filipinas essa comunidade é pouco conhecida", diz Mendoza. "Por isso resolvi fazer registro daquela realidade que me fascina." De fato, ele se demora longamente em imagens da pesca, da vida cotidiana, e também dos rituais, como a proposta de noivado e o casamento. O interessante são as "intervenções" da violência para mostrar que não estamos no Paraíso e sim num país com sérios problemas. Durante a pescaria, o barco do casal é atacado e o marido, ferido à bala. No casamento, sai outro tiroteio, talvez envolvendo o Exército e bandidos. Ninguém se queixa.

A vida continua. A dança prossegue quando cessam os disparos. É o cotidiano.

É um belo filme, no qual Mendoza, muitas vezes fascinado pela violência, se deixa seduzir pelo lado mais solar da vida. "Procuro apenas registrar a realidade, seja ela sangrenta ou amorosa."

Outro concorrente, o belga La Cinquième Saison (A Quinta Estação), de Peter Brosens e Jessica Woodworth, também é ambientado na natureza. Não o mar, como no filme de Mendoza, mas no campo, naquele estereótipo idílico que se imagina seja a campanha belga, com suas vaquinhas de leite e campos bem arados. A história segue as estações do ano, de forma pastoril, com adolescentes se enamorando e colheitas fartas. Tudo muda sem muita explicação e o humor das pessoas também. A busca por bodes expiatórios, sob a forma de estrangeiros, parece a saída. Há algo de terrível e surpreendente na história. O excesso de formalismo e contenção prejudicam um pouco.

Frisson. O frisson de Veneza foi a presença sempre midiática de Robert Redford, que veio ao Lido para apresentar, fora de concurso, The Company You Keep. Redford dirige e atua, fazendo o papel de um advogado viúvo, pai de uma menina de 12 anos. Jim Grant (é seu nome) vê seu passado de militante político vir à tona 30 anos depois quando uma companheira (Susan Sarandon) é presa. Eles faziam parte de um grupo radical que praticava atos violentos contra o regime na época da Guerra do Vietnã.

Numa dessas ações, um assalto a banco, um homem é assassinado. O personagem de Redford é o acusado e ele se vê obrigado a fugir. Em concorridíssima entrevista, Redford diz que se inspirou num personagem de Victor Hugo, em Os Miseráveis, para compor seu Jim Grant. Ele seria uma espécie de Jean Valjean moderno, "alguém perseguido implacavelmente por seu passado". O Javert de Grant é um agente do FBI, mas também um repórter ambicioso, Ben Shepard (Shia LaBeouf), que fareja no caso a matéria de sua vida, aquela que vai tirá-lo de um pasquim de Albany e levá-lo ao NY Times.

O próprio LeBoeuf entende que o jornalismo é um subtema dessa trama. "Cada época tem o seu tipo de jornalismo. Redford interpretou um repórter do caso Watergate (em 'Todos os Homens do Presidente'), numa época em que não havia internet. Agora é outra coisa", diz. "Mas, por diferentes que sejam, todos se confrontam com questões éticas, sobre os limites na busca pela verdade." Como exemplo, LeBoeuf citou o livro O Assassino e o Jornalista, de Janet Malcolm, que discute exatamente a ética da profissão e a questão da fidelidade às fontes.

Redford entende que há um tema que prevalece em The Company You Keep: "A violência usada a pretexto de transformações sociais. Não se pode dizer que a causa deles não fosse justa, afinal os EUA estavam metidos numa guerra injusta. O que se pode, sim, é fazer reparos aos métodos que empregam". Uma discussão que, infelizmente, não é aprofundada no filme. Naquele estilo de Redford, correto, porém sem brilho, somos levados a conclusões bastante conservadoras a respeito do tema. Não entendemos as razões dos antigos militantes, e todos parecem bem arrependidos. Um bom filme, embora meio previsível.

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