O lado pop da música erudita e vice-versa

Tenho um velho sonho, montar dois programas com obras para voz e piano, eruditas e populares, mostrando o teor pop que a música cult pode ter, e vice-versa. Preciso dos músicos e um produtor. Quanto às músicas, podemos discuti-las agora. Dois belos programas rodam em minha cabeça, as músicas misturadas, identificadas como uma só. Mas, que música é essa, poderemos questionar?

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h11

O compositor e teórico francês Vincent d'Indy, criador em 1896 da histórica Schola Cantorum de Paris, era taxativo ao afirmar que a música popular é a própria música erudita adaptada pelo povo às suas necessidades artísticas. Bela Bartók, também estudioso do problema, surpreendeu-se ao chegar a essa mesma conclusão. Bem mais longe ainda, o filósofo greco-romano Boécio gostava de afirmar que o inventor da música foi Pitágoras, em altíssimo nível de especulações semântico estruturais na área da invenção, totalmente alheias à música popular. A musica básica não vem (e nem pode vir) do povo. É coisa mental, de alta erudição. Mas a música popular se apropria dessa invenção e cria também suas obras-primas, a nível de comunicação de massa: que por sua vez, num processo de feedback, vão se tornar muitas vezes fonte de inspiração para a música erudita da qual se originaram. Um círculo vicioso de realimentação. No fundo, tudo é a Música. Vamos então degusta-la, em meus sonhados concertos, através, uma a uma, de minhas canções escolhidas

Aquela qualidade emocional de natureza refinada, complexa, abstrata, intelectual, que a música erudita possui, eu sinto sutilmente, por exemplo, em Inútil Paisagem, de Tom Jobim, Esse Cara e O Dom de Iludir, de Caetano Veloso, João Ninguém, de Noel Rosa (cantado pela Aracy de Almeida), O Que Será, de Chico Buarque. Esta última é um verdadeiro Fauré, na extraordinária força expressiva de sua beleza! Essa elevada qualidade e refinamento eu sinto ainda principalmente em todo o cancioneiro popular norte-americano e alemão dos anos 30 a 50 do século passado, quase já uma música erudita, tamanha é sua sofisticação. Popular e erudito conviveram muito de perto nessa época. Basta ouvir, para termos certeza disso, um Too Romantic, de James Monaco, Looking for Yesterday, de Jimmy Van Heusen, The Way You Look Tonight, de Jerome Kern, Isn't It Romantic e It's Easy to Remember, de Richard Rodgers, Be Careful It's My Heart, de Irving Berlin, Someone to Watch Over me e Love Is Here to Stay, de Gershwin, Alone, de Nacio Herb Brown, You Leave me Breathless e Von Kopf biss Fuss, de Friedrich Hollaender, Ich sing' mein Lied heut'nur für dich e Oh Marita, de Robert Stolz, Der Lotterieagent, de Kurt Weill, Glaube Mir, de Gerhard Winkler, a fantástica Denkst du nie Daran, de Ferenc von Vecsey, e No Love No Nothing, de Harry Warren. Esta última cantada pela maravilhosa Alice Faye (e ainda tocada pela banda de Benny Goodman, dava para ouvir o piano de Jess Stacy ao fundo) no deslumbrante All Gang's Here, de Busby Berkeley. As velhas rádios paulistanas tocavam tudo isso aí nas vozes inesquecíveis de Bing Crosby, Fred Astaire, Marika Roeck, Dorothy Lamour, Dick Powell, Alice Faye, Rudy Vallee, Marta Eggerth, Jan Kiepura, Marlene Dietrich, Zarah Leander.

Agora, o outro lado da questão, a qualidade emocional de natureza simples, direta, concreta, coletiva, comunicativa, que a música popular possui, e que podemos encontrar também na música erudita, mesmo nas mais refinadas, como Tristesse, de Fauré, Si mes Vers Avaient des Ailes, de Reynaldo Hahn, Lied, de César Franck, Der Nussbaum e Widmung, de Schumann, Amo-te, de Grieg, E Lucevan le Stelle, de Puccini, Green, de Debussy (já tive esta deliciosa canção em disco 78 rotações pela mitológica soprano inglesa Maggie Teyte), Canção do Carreiro, de Villa-Lobos, Die Nacht, de Richard Strauss, Acalanto da Rosa, de Cláudio Santoro (esta última, já prenunciando a bossa nova). E, surpreendentemente, Le Papillon et la Fleur, de Fauré, e Seligkeit, de Schubert, já verdadeiras músicas de cabaré. E temos o caso curioso de An den kleinem Radioapparat, de Hanns Eisler, que chegou a ser cantada pelo roqueiro inglês Sting como música pop. Aliás Eisler, quando canta suas próprias canções, lembra o Tom Waits.

O que identifica todas essas canções num mesmo nível de qualidade é um certo mistério terrível (diria Dostoievski!), insondável e arrebatador, até perturbador, que sentimos igualmente na beleza, por exemplo, tanto de Tristesse, de Fauré, Die Nacht, de Strauss, como de Inútil Paisagem, de Jobim, You Leave me Breathless, de Hollaender. É demasiada beleza, hélas !

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