O lado engraçado do trágico Dostoiévski

O crítico literário Otto Maria Carpeaux costumava dizer que a história da literatura se dividia entre antes e depois de Dostoiévski. Seus personagens, dominados pela culpa e a noção de pecado como Raskólnikov, de Crime e Castigo, ou esmagados pela injustiça e crueldade do mundo como Aliocha, de Os Irmãos Karamazov, possuem uma grandeza que os torna quase palpáveis. Mas o autor de O Idiota e Os Possessos escreveu também várias histórias curtas para obter dinheiro e saldar suas muitas dívidas de jogo, pois era um jogador compulsivo. Quando voltou da Sibéria, para onde havia sido mandado em degredo depois de ter sua sentença de morte comutada por trabalhos forçados, Dostoiévski escreveu duas novelas, Tio Sônia e A Aldeia de Stiepântchikov e seus Habitantes. As duas são pouco conhecidas dos leitores e só tiveram traduções para o português do francês, como aconteceu com a maior parte da obra do autor. No mês que vem, chega às livrarias brasileiras a segunda novela, em tradução feita diretamente do russo, assinada por Klara Gouriánova. Em A Aldeia de Stiepântchikov e seus Habitantes, Memórias de um Desconhecido (Nova Alexandria), Dostoiévski exerce um estilo e técnica ligados a comédias sociais e satíricas, e cujo ponto alto é a autobiográfica novela O Jogador. O livro pode ser lido como um saboroso e patético retrato de aldeões russos, quase uma exceção na bibliografia do autor, que preferia os cenários de São Petersburgo aos ambientes rurais para suas histórias. A Rússia na época de Dostoiévski era um império atrasado e agrário, dominado por uma elite que falava francês e desprezava a maioria da população, formada por mujiques (camponeses). Trapaceiro místico Stiepântchikov é a propriedade que o coronel Iegor Ilitch Rostániov recebe de herança no início da história, narrada pelo seu sobrinho Serguei. A bondosa alma do coronel é um prato cheio para um cortejo de parasitas fanáticos - a começar por sua mãe, viúva de um general -, que gravita em torno de Fomá Fomitch Opeskin, um místico trapaceiro metido a sábio, que havia servido como bobo da corte ao marido da generala. "Uma alma vil, ao sair debaixo do jugo, torna-se dominadora ela mesma", escreve Dostoiévski a respeito de Fomá, traçando em poucas linhas, como era seu costume, a complexa personalidade de seus personagens. Também como acontece na maior parte de seus livros, em A Aldeia de Stiepântchikov os personagens de melhor caráter são sobrepujados em profundidade e grandeza pelos tipos mais vis e canalhas. Presença tirânica O tema central da novela é o casamento, leia-se a felicidade, do coronel Rostániov com a jovem Nástienka, cuja realização é difícil dada a desigualdade das condições sociais dos apaixonados. Mas no centro de tudo encontra-se a presença tirânica e dominadora de Fomá, que faria lembrar em tudo - se não tivesse sido imaginado tanto tempo antes -, a sinistra figura de Rasputin e sua influência aterradora na corte de Alexandre 2º, o último czar da dinastia dos Romanov, que sucumbiu à revolução russa em 1917. Fomá é o popular picareta, que assombra os servos da propriedade com suas diatribes e pregações sobre o pecado e a justiça divina, acompanhado por um séquito de senhoras que tremem dentro dos seus vestidos com sua eloqüência. Por mais que tente desmascará-lo, no que é ajudado e incentivado por seu sobrinho, o bom coronel acaba sempre subjugado por Fomá, vítima de sua fraca personalidade e do repúdio da mãe. Se A Aldeia de Stiepântchikov não chega às alturas de obras-primas como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota e Os Possessos, é exemplo de como Dostoievski manejava com incrível habilidade a técnica narrativa e como, mesmo em textos mais curtos, sabia fazer ao mesmo tempo crítica social e retratos assustadores da personalidade humana.

Agencia Estado,

26 de fevereiro de 2001 | 11h52

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