O laboratório de gêneros de Woody Allen

Fox lança coleção com 20 títulos essenciais realizados pelo cineasta norte-americano entre 1971 e 2004

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2010 | 00h00

 Dois dos três filmes de Woody Allen que o diretor norte-americano mais gosta estão na caixa que a Fox Home Entertainment lança esta semana com duas dezenas de suas melhores obras, do ultrajante Bananas (1971), crítica mordaz ao radicalismo de guerrilheiros latinos, ao intelectual Melinda e Melinda (2004), passando por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Zelig (1983), Setembro (1987) e Neblina e Sombras (1991). Os dois filmes anteriormente citados como os favoritos de Allen são Memórias (1980) e A Rosa Púrpura do Cairo (1985). O terceiro da lista não está na caixa: é o recente Match Point (2005).

A seleção da Fox contempla grandes momentos da carreira do diretor e os títulos podem ser adquiridos separadamente. Todos tiveram seus preços reduzidos para venda individual, de R$ 24,90 para R$ 19,90. O box completo com os 20 títulos custa R$ 249,90. Embora não tragam extras adicionais às cópias que circulavam anteriormente (Allen jamais grava extras ou revê seus filmes), os títulos justificam o investimento. De alguma forma, eles sintetizam uma carreira de mais de 40 anos no cinema, marcada sobretudo pela experimentação - há tanto a screwball comedy, em que vale tudo (O Dorminhoco, 1973), como o intimista exercício bergmaniano de Interiores (1978), incluindo incursões nostálgicas na biografia do realizador e no passado histórico americano - A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e A Era de Rádio (1986).

Em todos esses filmes, as mudanças de registro são exercícios de um intelectual que fez do cinema uma espécie de laboratório de gêneros - da comédia escrachada (Bananas) ao melodrama (Simplesmente Alice, 1990), esbarrando no horror moderno (o do serial killers em Neblina e Sombras). Esse fio tênue que separa os gêneros, aliás, é discutido em Melinda e Melinda, em que Allen conta uma mesma história em duas diferentes versões, uma cômica e outra séria. Essa mudança de perspectiva é orientada pelas duas maiores fixações de Allen, o soturno Ingmar Bergman e o festivo Federico Fellini. Ficou marcada em sua memória uma conversa que teve com Sven Nykvist (que fez as imagens de Crimes e Pecados em 1989, um dos filmes do box), em que o fotógrafo de Bergman conta como ele e o cineasta sueco se divertiam filmando cenas dramáticas, enquanto faziam fofocas sobre a vida sexual dos atores.

Num de seus filmes, Allen justifica essa postura dizendo que todos conhecem a mesma verdade, mas que nossas vidas consistem em distorcê-la, seja por meio da religião, do sexo ou da política. A arte, para ele, não transcende, não tem vida após a morte. Tem de ser consumida no contexto da existência do artista. Isso não quer dizer que ele e seus colegas façam filmes descartáveis, mas que é preciso levar em conta a vida real de seus contemporâneos para poder comunicar algo de palpável dentro de um curto espaço de tempo, e não produzir apenas entretenimento. Isso explica a adoção do cinema europeu como modelo.

Tanto que, ao decidir contestar sua classificação usual - o de realizador de comédias de tipos - realizando Interiores, o adjetivo bergmaniano foi colado automaticamente ao cineasta, que logo surpreenderia os críticos no ano seguinte ao retomar o caminho dos estereotipados neuróticos nova-iorquinos em Manhattan. O filme virou cult, a despeito de Allen, surpreendentemente, ter abjurado a obra, a ponto de ter feito Memórias para inaugurar outra fase nos anos 1980, a dos filmes com reminiscências da infância e da adolescência. Esse filão rendeu filmes engraçadíssimos como A Era do Rádio (1987) e Broadway Danny Rose (1984). Muitos defendem que foi a época de ouro de Allen, mas, a considerar seu último filme, Tudo Pode Dar Certo, ele ainda está em plena forma.

DESTAQUE DA CAIXA

A Rosa Púrpura do Cairo

Rodado em 1985, é um dos três favoritos do cineasta

Manhattan

Cult absoluto entre os fãs, não passou pela revisão crítica de seu exigente

realizador

Melinda e Melinda

O mais recente da coleção (2004). Conta a mesma história em duas versões

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Feito em 1977, definiu um cinema de tipos de NY

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.