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O labirinto do futuro

No ponto de partida, havia medo e esperança. As utopias costumam ter custo alto

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2018 | 02h00

Quando planejamos o futuro, há muitas variáveis para equacionar. Se eu escolher tal caminho, abro esta porta, fecho aquela outra. A cada opção aleatória, duas ou três novas brotam em minha frente. Não raro nos debatemos com a dúvida de saber se tomamos a rota correta ou não. Por que alguém tomou o rumo X e não outro?

Com as ressalvas feitas, convido você a pensar um 7 de novembro, há 101 anos. Essa era a data de acordo com o calendário gregoriano. Na Rússia de 1917, usava-se o juliano e era, portanto, 25 de outubro.

O país era a periferia da Europa. O território era vasto, agrário e com diferenças sociais enormes. Toda a nação russa enfrentava a Grande Guerra. O czar Nicolau II acreditava conversar com os céus e decidira ir ao front dirigir tropas mal armadas. Milhões morreram no campo de batalha ou pela fome e carestia que se espalhavam. Entre março e novembro de 1917, Petrogrado (hoje São Petersburgo), a quinta maior cidade europeia da época (2,4 milhões de habitantes), permaneceu sob estado de sítio. Diante do quadro de caos e abandono, pressionado por forças políticas de oposição, o imperador é forçado a abdicar em março de 1917. O poder passou para o governo provisório chefiado pelo príncipe Lvov, figura insólita digna de romance russo inspirado.

Havia um grupo moderado chamado menchevique. Os militantes mais à esquerda eram chamados de bolcheviques e desejavam a saída da Rússia da guerra, uma tomada imediata do poder pelo “povo”. Seu líder era Vladimir Ulianov (de apelido Lenin), que vivera no exílio por 17 anos.

A escassez de comida e a insatisfação política grassavam. No início de julho, ocorrem novos atritos. As classes médias, diante da polarização dos discursos, apoiaram maciçamente uma onda repressiva promovida pelo governo. Lenin foge uma vez mais, refugiando-se na Finlândia, Trotsky, um intelectual que aderira ao partido recentemente, é preso junto com cerca de 800 bolcheviques. Lvov, diante da escalada de repressão e da polarização, renuncia. A um amigo escreve que “a única maneira de salvar o país é fechar o Soviet (assembleia de trabalhadores e militantes) e matar todos, mas não posso fazer isso. Kerenski pode”. Eis o nome do novo líder do governo. A ascensão de Kerenski custou a frágil aliança entre o governo e o exército. Trotsky é solto e assume a presidência do Soviet de Petrogrado. Os bolcheviques incharam com o caos: eram 14 mil em fevereiro e passaram a 350 mil em outubro. Controlavam bairros e a importante base militar de Kronstad. Naquele mês, Lenin, que regressara escondido do exílio, decide arriscar a chance. Contrariando outros líderes bolcheviques, que ainda preferiam a aliança com o governo, ele e Trotsky passaram a defender a tomada do poder imediatamente.

Por volta das 22h do dia 6 de novembro, Lenin se fantasia de operário, com direito a peruca e tudo. Fingindo estar bêbado, chega ao Instituto Smolni, de onde comandaria as ações. Muitos sabiam que um golpe estava para ser dado, mas o dia 7 correu quase sem nenhuma novidade. À tarde, uma multidão de soldados e operários se reuniu em frente à enorme praça em frente do Palácio. Parecia mais uma manifestação, como tantas então. Bondes rodavam normalmente. Pessoas andavam desavisadas na Avenida Nevski, cinemas e teatros funcionavam, óperas eram encenadas ao mesmo tempo que, no Rio Neva, o navio Aurora estava pronto para disparar caso recebesse ordens de Kronstad. Fazia dois dias que os bolcheviques haviam tomado o marco zero da cidade, a infame fortaleza de Pedro e Paulo, uma prisão política no tempo dos czares. Dali, deviam mostrar uma luz vermelha que colocaria todo o plano em marcha. Mas não tinham uma luz vermelha! Estavam atrasados e Lenin, impaciente. Pelas 21h, pouca coisa mudara. John Reed, o jornalista americano que tinha faro para revoluções (já cobrira a Mexicana), escreveu que não percebera nada. Tomava sopa no Hotel France, a poucos quarteirões do Palácio de Inverno, quando o garçom sugeriu que ele fosse para o salão interno do restaurante: “as luzes do salão principal seriam apagadas quando começassem os tiros”. Reed não suspeitava, mas, desde o início da noite daquele dia, os ministros do governo haviam recebido um ultimato para se renderem. Kerenski fugira de maneira atabalhoada. Ele e seus homens procuraram táxis. Não encontrando, roubaram dois carros. Um estava sem gasolina e tiveram de furtar combustível de um terceiro veículo. Outros líderes permaneceram no Palácio, entre a dúvida e a inércia.

Passava de 2 horas da manhã do dia 8, quando, em meio a um frio cortante, do segundo andar do Palácio de Inverno, o que restara do governo ouviu gritos e alguns tiros. A porta se abriu e Vladimir Antonov-Ovseenko, um jornalista esquálido e baixo, secretário do comitê revolucionário, anunciou a prisão de todos. O governo trocava de mãos sem muito alarde: uma cornija lascada no prédio e uma vidraça quebrada no terceiro andar. Quando isso ocorreu, os bolcheviques controlavam os correios, as redes telefônica e de geração elétrica, além das delegacias de polícia e estações de trem.

Lenin saía da toca liderando um novo governo. Enquanto tirava a Rússia da Guerra, cooptando os militares, negava um novo governo de coalizão. Com isso, mergulharia o país em uma violenta guerra civil. Lenin morreria em 1924 e novos “czares” tomariam o seu lugar, em uma longa linha de homens fortes. A Rússia, como a China, jamais conheceu um período democrático.

A Rússia foi transformada em URSS. Em quase sete décadas, o poder soviético derrotou o nazismo, promoveu reformas imensas, criou o primeiro sistema universal de saúde pública, integrou as mulheres ao mercado de trabalho e conquistou o espaço. Ao mesmo tempo, sufocou liberdades individuais, exterminou minorias, criou campos de concentração, matou milhões pela fome e deixou um rastro genocida impressionante. Naquele dia 7 de novembro de 1917, ninguém sonhava com isso. O futuro ainda seria escrito. No ponto de partida, havia medo e esperança. As utopias costumam ter custo alto.

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