Mônica Bento/AE
Mônica Bento/AE

O karaokê de Rihanna

Fenômeno do pop faz show insosso, sem mostrar ao vivo a qualidade de seus sucessos

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2011 | 00h00

Segundo a apuração da rádio pública norte-americana, um milhão de dólares foi o valor desembolsado pela Def Jam, proeminente gravadora de black music, para emplacar Man Down, o sucesso mais recente de Rihanna. Isto inclui despesas para um simpósio de hitmakers, que passam semanas elaborando canções em estúdios de Los Angeles, o preço da composição, o cachê de um produtor para arquitetar o hit, o de uma produtora vocal para dirigir os takes de Rihanna, mais o jabá das rádios nacionais.

A canção é excelente. Nela, Rihanna sugere seu histórico de violência domiciliar (em 2009 foi bofeteada pelo pop star Chris Brown, seu namorado na época) encarnando uma personagem que acaba de balear seu amante, transitando entre um grave percussivo e um falsete sonhador. Mas a partir do momento em que Man Down surge na set list ao vivo, como aconteceu neste sábado a noite, na Arena Anhembi, durante o primeiro show da turnê que a cantora caribenha faz pelo Brasil, a sensação de que Rihanna é um mero fantoche da indústria fonográfica - e o ouvinte, um consumidor passivo, enganado por um esquema sagaz, começa a se apoderar dos sentidos. "E que fantoche!", diriam alguns, referindo-se ao belo metro e meio de pernas que a cantora ostenta com a confiança de uma stripper veterana.

Mas nem os dotes, nem o Kama-Sutra de posições sexuais encenado durante a apresentação escondem a falta de entrega e personalidade da cantora. O carisma é quase nulo. Durante mais de uma hora e meia de show, na turnê que vai a Brasília, Belo Horizonte e se encerra no Rock in Rio, Rihanna referiu-se à plateia duas vezes, cometendo uma gafe incrível numa delas, quando perguntou ao seu guitarrista o que deveria dizer aos paulistanos e o músico respondeu "salud". Um "obrigado" a quem pagou até 600 reais para assisti-la não estava no script. Performances mixas, amparadas por um playback que inclui batidas e vozes-guia predominam.

O microfone é aberto, mas quando Rihanna encurta as frases, ouve-se uma melodia de suporte ao fundo, o que da à apresentação uma dinâmica achatada, semelhante à do DJ que toca remixes enfadonhos de clássicos do pop antes do show. O sorriso, os gestos e a interação com o público são igualmente mecânicos. A expressão facial, aliás, não é muito mais flexível do que a de Elza Soares e mesmo nos picos de empolgação, em canções como Don"t Stop the Music, Rihanna parece estar apenas encenando uma performance de alta voltagem.

Na noite de sábado, nem os graves do sound system, nem o frenesi adolescente ajudou. No entanto, tudo isso destoa da qualidade da set list, que inclui uma profusão de melodias e batidas contagiantes, como as de Umbrella, Take a Bow, Disturbia e S&M. Com apenas 23 anos, Rihanna é a mais jovem cantora na história a emplacar dez singles no topo da Billboard. O disco Loud, lançado no ano passado, contem três destes (What"s My Name, I"m the Only Girl in the World e S&M) e ganha de Teenage Dream, de Katy Perry na disputa de melhor lançamento de uma diva pop no ano. Na noite de sábado, nem quando interpretou o visceral hit Love the Way You Lie, em que faz parceria com Eminem, cantando sobre as tormentas de um relacionamento conjugal doentio, Rihanna se redimiu.

Esta veio no bis, no momento em que poderia se redimir, mas sem as rimas do rapper, Rihanna não consegue encarnar a catarse melancólica que rege a canção. A sensação que fica, mesmo com toda a produção de telas LCD, de dançarinos sarados, de um canhão cor-de-rosa em que Rihanna monta para cantar, é a de um burlesco burocrático, desinteressado e inexpressivo, minado pela rotina ou pela incapacidade de reproduzir ao vivo aquilo que os produtores sabem que vai seduzir o coração da moçada.

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