Thiago Teixeira/AE
Thiago Teixeira/AE

O justo que venceu Hitler

Biógrafo fala de Sousa Mendes, o cônsul que salvou 30 mil pessoas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) é um nome pouco familiar aos brasileiros, mas há 50 anos os israelenses plantaram 20 árvores em sua memória no terreno do Yad Vashem, o Memorial do Holocausto em Jerusalém, atribuindo ao diplomata o título de "Justo entre as Nações" - o equivalente a uma canonização entre os católicos. Cônsul português em Bordeaux quando a França foi invadida pelos nazistas, em 1940, Sousa Mendes ousou desafiar o ditador português Antonio Salazar (1889-1970) e concedeu nada menos do que 30 mil vistos para refugiados que fugiam das tropas de Hitler, entre eles 10 mil judeus que cruzaram Portugal para chegar a outros países. Punido por Salazar, que o afastou do cargo e ainda cortou seu salário pela metade, Sousa Mendes, de origem aristocrática e pai de 14 filhos, viveu seus últimos dias dependente da bondade alheia. Dizem que, ao morrer, no hospital dos franciscanos de Lisboa, foi enterrado com um hábito da ordem. Nem um terno havia restado do outrora elegante guarda-roupa do diplomata.

A história que o escritor português Rui Afonso conta na biografia Um Homem Bom, que será lançada hoje, com debate, na Casa de Portugal, faz pela reabilitação da memória de Sousa Mendes o mesmo que os israelenses ao homenagear o herói. A despeito de ser pouco lembrado no estrangeiro, quatro anos atrás ele foi eleito, numa enquete promovida pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP1), o terceiro português entre os dez mais importantes de todos os tempos. O primeiro - ironia macabra - foi Salazar, justo o homem que apoiou Franco, em 1936, e mandou publicar uma circular dando ordens expressas aos seus embaixadores para não conceder vistos a pessoas que planejavam fugir da França no verão de 1940 - isso quando milhares de judeus suplicavam a diplomatas um visto para salvar suas vidas.

"Há outro "justo" português que merece ser lembrado ao lado de Sousa Mendes, Sampaio Garrido (Carlos de Almeida Fonseca Sampaio Garrido, embaixador de Portugal em Budapeste entre 1939 e 1944), que também arriscou a vida para ajudar os judeus", lembra o biógrafo Rui Afonso, de 60 anos. Ele se interessou pela vida do primeiro ao escrever um artigo para um jornal no Canadá, onde mora com a mulher francesa, professora de alemão que o ajudou na tarefa de examinar documentos pesquisados para o livro. Afonso fez um primeiro esboço em 1987, publicando-o sob o título Injustiça. Cinco anos depois saiu uma edição ampliada e mais próxima da lançada no Brasil, que inclui entrevistas com parentes do biografado.

O livro mostra "como o sentido da história pode ter pesado na decisão que Sousa Mendes tomou", ao corrigir um erro que maculou a imagem de Portugal no século 15, o episódio da expulsão dos judeus, em 1497. Por coincidência - ou destino -, alguns descendentes desses perseguidos foram parar em Bordeaux. Cinco séculos depois seriam salvos graças a um português com senso de honra. "O diplomata era descendente de homens da lei, filho de um juiz", observa Rui Afonso, para explicar a atitude de um diplomata que estava jogando fora 30 anos de carreira e caminhando rumo à ruína financeira por desafiar um ditador, cuja tática era permanecer neutro para obter vantagens se outro ditador, Hitler, vencesse a guerra.

A perspectiva de insolvência do diplomata era real. Além dos 14 filhos com a mulher Angelina, Sousa Mendes teve de assumir mais uma filha ao casar com sua amante Andrée, após a morte da esposa, todos eles dependentes do herói. Compreensiva, a primeira mulher ajudou o cônsul de Bordeaux em sua missão, acolhendo em sua casa - já lotada de refugiados - crianças abandonadas e celebridades como o ator de cinema Robert Montgomery, que trabalhou como voluntário durante a guerra, dirigindo uma ambulância. Antinazista, a militância de Sousa Mendes desafiou a política oficial de Salazar - de suspeita neutralidade, uma vez que sua circular proibindo os embaixadores de conceder vistos encurralava os judeus num beco repleto de nazistas. Entre sobrenomes famosos ajudados pelo cônsul estavam membros das famílias Habsburgo e Rothschild."Maurice Rothschild foi um dos que retribuíram mais tarde a ajuda, enviando dinheiro ao diplomata", conta o biógrafo.

Apesar da ajuda, os cinco últimos anos de vida do cônsul português foram desastrosos. Ele e a nova mulher Andrée foram morar no Passal, em Cabanas de Viriato, freguesia portuguesa onde nasceu o diplomata, hoje reduzida a pouco menos de 2 mil habitantes. Para piorar, Andrée não era uma pessoa de fácil convivência. Antissocial, vivia provocando a temível polícia política de Salazar. O irmão gêmeo de Aristides, César, igualmente punido pelo regime salazarista, foi afastado do seu posto diplomático em Berna. Em síntese: a família nunca saiu da mira do ditador.

Por causa disso, quase todos os filhos do primeiro casamento debandaram. Muitos foram morar fora de Portugal. Sousa Mendes encontrou o conforto na filha que teve com a francesa Andrée. "Ele conheceu a garota quando ela já tinha 10 anos", conta o biógrafo. "Maria Rita revelou que o pai sempre a tratou com o maior carinho." À filha, o diplomata contava histórias engraçadas da excêntrica Andrée, que odiava o povo de Cabanas de Viriato e queria posar de grande dama mesmo em situações adversas , como na visita de um figurão à decadente casa de Passal. Sem roupa adequada para usar, Andrée, repetindo o gesto de Scarlett O"Hara no filme ...E O Vento Levou, arrancou a cortina de veludo da sala de estar e costurou um belo vestido.

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