O judaísmo de Carlitos

As controversas origens de Chaplin - que há 70 anos lançava O Grande Ditador - e sua relação com esta obra foram assunto do caderno

Marcos Margulies, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

287, Kennington Road onde, no dia 16 de abril de 1889, nasceu Charles Spencer Chaplin, acha-se naquela parte de Londres que a pobreza havia tornado famosa mesmo fora das ilhas britanicas. Ali, entre Whitechapel, East-End e Lambeth, passou Chaplin sua meninice.

"Viviamos num quarto miseravel", recorda Sidney, o irmão mais velho de Chaplin. "Frequentemente, nada tinhamos para comer. Nem Charlie nem eu possuiamos sapatos. Muitas vezes, minha mãe tirava suas botas e um de nós calçava-as para conseguir a sopa popular, a unica refeição do dia para todos nós".

Anos depois, ao falar naqueles tempos longinquos, Chaplin teve a coragem de reconhecer tristemente:

"Naqueles dias, o unico elemento constante da minha vida foi a fome e o medo do amanhã, o continuo, ininterrupto medo do amanhã. E não há nada que me possa libertar deste medo, nenhum sucesso, nenhuma prosperidade. Fiquei marcado para sempre por este temor da pobreza e da privação".

Quando a mãe de Charles, após a morte do marido, não mais conseguindo manter as crianças, foi acometida de uma depressão nervosa que a conduziria ao hospicio, Charles e Sidney acostumaram-se a dormir na rua e a alimentar-se de frutas estragadas, roubadas habilmente das feiras. Ademais,

"Charles conseguira uma especialidade: com pedaços de madeira e pedaços de cortiça que encontrava no lixo, fabricava pequenos barcos; vendia-os a outras crianças por um penny..."

Muitos inimigos de Chaplin adulto, do Chaplin famoso, franco, corajoso, zombariam destas recordações do irmão. Para eles, um "senso inato dos negocios teria preservado o pequeno Chaplin da miseria" - senso inato, pois, embora se tratasse da criança de uns seis anos apenas, Charles Chaplin era de origem judaica.

Na verdade, são bastante nebulosas essas origens judaicas de Charles Chaplin. Manuel Villegas Lopez afirma que "seu pai era descendente de familia judaica convertida ao dogma anglicano", enquanto F. Silva Nobre, em sua obra compilatoria, assim escreve sobre o pai de Chaplin: "Descendente de familia judia de origem francesa, havia obtido certa notoriedade como ator do music-hall". Por outro lado, George Sadoul e Jean Mitry, se bem não mencionem as origens israelitas do pai de Chaplin, referem-se a essas origens do lado materno. "Filha de familia burguesa de origem judeu-irlandesa" - informa sobre a mãe de Charles o historiador Jean Mitry - tornou-se atriz, conhecida sob o nome de Florence Harley ou Lily Jarley, tendo pertencido à empresa de operetas de Gilbert e Sullivan. (...)

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