O jovem James Bond em livro, para manter a bondmania

James Bond foi escalado para uma missão especial: impedir que seu próprio mito morra entre as gerações futuras. Não que o personagem esteja mal das pernas, ao contrário - prova disso é o lançamento bem sucedido do filme Cassino Royale, no ano passado. Mas a Ian Fleming Publications (IFP), que detém os direitos sobre o charmoso agente criado por Ian Fleming nos anos 50, resolveu montar uma versão jovem de James Bond para plantar a semente da Bondmania entre os jovens. Sucesso absoluto, com mais de meio milhão de livros vendidos apenas na estréia, o fenômeno inglês já tem dois títulos nas livrarias brasileiras. Missão Silverfin foi lançado no ano passado e, agora, A Morte É Contagiosa" (Record, 400 páginas, R$ 50) acaba de sair. Num thriller delicioso, o jovem Bond se diverte praticando o esporte de correr riscos e quebrando a monotonia de um colégio inglês. Simplesmente isso, correr risco. Xeretando, logo ele estará envolvido com sociedades secretas, professores que agem de forma estranha, milionários excêntricos e, claro, belas e indefesas jovens seqüestradas de iates luxuosos - sim, é de pequeno que se diz a que veio. Fascinado pelo personagem desde a infância, o inglês Charlie Higson recebeu da IFP a tarefa de contar o passado de James Bond e, três livros depois (além dos dois lançados no Brasil, há ainda Double or Die), ainda mal pode acreditar que teve tanta sorte. Escritor, roteirista, produtor, ator e, agora, feliz da vida por escrever bons livros para os filhos e os amigos deles, ele falou à reportagem com exclusividade. Como se tornou um escritor da série James Bond? O personagem James Bond foi criado por Ian Fleming, que escreveu a maioria dos livros nos anos 50. Fleming, infelizmente, morreu em 1964, mas a companhia tocada por sua família (Ian Fleming Publications, IFP) deu continuidade ao personagem maravilhoso que ele criou. A idéia da série sobre o jovem James Bond é deles, não minha. Sempre fui um fã de Bond. Cresci nos anos 60, quando os filmes de Sean Connery foram feitos e eu adorei vê-lo com os olhos de um garoto. Eu li (e me diverti) todos os livros de Fleming, mas nunca poderia imaginar que um dia seria convidado a escrever uma novela de James Bond. Desde criança, eu queria escrever aventuras juvenis, então quando fui aprovado pela Fleming para trabalhar numa nova série de James Bond para leitores jovens, parecia bom demais para se tornar realidade. Cresci com Bond, e quando finalmente aceitei a idéia de que jamais faria o papel em um de seus filmes, fui convidado para esse trabalho e percebi que escrever sobre ele pode ser muito mais excitante. Por que me escolheram? Quem sabe? Eu tinha escrito quatro thrillers adultos, tenho três meninos (de 7, 11 e 13 anos) justamente na idade de se divertirem com os livros que escrevo agora e fui um fã juvenil de Bond, mas... talvez a IFP tenha simplesmente ido com minha cara! A que acha que se deve o fascínio que ainda há pela figura de Bond? James Bond tem algo em torno de 50 anos agora, e o sucesso de Cassino Royale mostrou que ele é popular como nunca. Isso se deve em parte ao fantástico personagem criado por Fleming e também aos times que se juntam para os filmes, e que reinventam Bond de tempos em tempos, tornando-o próximo de cada nova geração. As diferentes encarnações de Bond compõem um fascinante panorama dos costumes dos homens e dos heróis através dos anos - mas a essência de Bond é sempre a mesma, ele é sempre o cara mais cool do pedaço. Ele sempre se garante, sabe sempre o que fazer em qualquer situação - seja pedir o vinho certo num restaurante chique ou lançar luzes sobre um crime -, se veste bem, é suave, mas durão. Basicamente, é o homem ideal, aquele cara que todo homem gostaria de ser e com quem toda mulher gostaria de passar a noite. Ele daria um péssimo marido, é verdade, mas é o homem perfeito para se ter um affair. Quando conheceu o personagem? Como disse, nasci nos anos 60. O primeiro filme que me lembro de ter visto no cinema foi Thunderball (007 contra a Chantagem Atômica, de 1965) e Bond foi de fato a coisa mais bacana daquela década ultrabacana. Você não poderia imaginar os anos 60 sem James Bond. Li todos os livros nos meus 20 anos, comprei todos os filmes em DVD, agora, para os meus filhos. Então, ser convidado para escrever os livros de Bond é inegavelmente como um sonho que se tornou realidade. Como um fã de Bond, o que sabia sobre o passado do personagem antes de começar a escrever a série? Como disse, eu li todos os livros de Fleming quando tinha 20 anos, então conhecia o personagem muito bem. De qualquer forma, apenas quando tive de escrever meus próprios livros é que comecei a estudá-los devidamente, além de procurar outras fontes de referência sobre Bond. Fleming tinha nos dito realmente muito pouco sobre o passado de Bond em seus livros, e somente no penúltimo - You Only Live Twice - ele realmente nos contou alguns fatos sobre a infância do personagem (num obituário publicado no Times quando pensam que Bond morreu durante uma missão). Essa foi minha bíblia. Meu briefing original da Fleming Estate foi para que me aproximasse dos fatos como foram nos livros originais e que ignorasse todo o resto. Gostou de "Cassino Royale"? Eu acho Cassino Royale excelente. Fui à pré-estréia - com a Rainha! Como um fã de Fleming, foi incrível ver um filme que utiliza tanto do livro original - o primeiro e um dos melhores. E achei que o Daniel Craig é um perfeito Bond da nova era. Como vê a Bondmania hoje? É extraordinário como ela cresce mais e mais. O lançamento de Cassino Royale na Inglaterra foi o maior do universo Bond em todos os tempos. Nunca vi tanta vibração em torno de um filme. A EON, produtora responsável pela série de filmes protagonizados por James Bond, tem tido muita habilidade ao lidar com esse produto. Usam o apelo de Bond sobre a psique masculina - homens que colecionam coisas, que adoram saber trivialidades e aparência. Então, o fato de Bond ter uma longa e interessante história faz dele o perfeito veículo para as obsessões masculinas. Há pessoas que compram todos os livros, todas as diferentes versões dos filmes, todos os DVDs, fitas de vídeo gravadas da TV que nunca mais serão exibidas. Isso que é dedicação - e também um exemplo supremo sobre como o cérebro masculino funciona. Pensa em levar o jovem James Bond ao cinema? Sim, adoraria fazer uma série de filmes com o jovem Bond - um dia. No momento, nossa intenção é estabelecer a série como livro, primeiro. Nós não queremos rivalizar com os filmes, e sermos atropelados por eles. Os livros vêm primeiro, são os que importam agora. Uma das minhas intenções ao escrever é fazer os garotos lerem mais. Não sei como é no Brasil, mas aqui é muito difícil fazer os jovens lerem. Parte do problema é que eles têm muitas outras distrações, mas eu ainda acredito que é porque eles passaram muito tempo sem livros de aventura realmente excitantes para garotos. As coisas estão mudando para melhor - ainda bem.Perfil de Charlie HigsonCharlie Higson nasceu em 1958, em Somerset, na Inglaterra, e é produtor, ator, cantor, roteirista e ex-líder de uma banda de rock dos anos 80, o The Higsons. Começou sua carreira de maneira mais consistente na BBC, como roteirista e ator do sketch show The Fast Show, de 1994 a 2000. Depois de publicar romances de suspense para adultos, como Full Whack (1995) e Getting Rid of Mister Kitchen (1997), foi convidado para construir o passado do agente mais famoso de todos os tempos, James Bond. Graças à sua narrativa ligeira, senso de humor refinado e à capacidade de resgatar o melhor espírito dos antigos livros de Ian Fleming, criador de Bond, Higson transformou a série num sucesso que já foi lançado em 25 países. Só o primeiro volume - Missão Silverfin - já vendeu mais de meio milhão de exemplares em todo o mundo. Até agora, foram lançados três livros da série e mais dois estão programados.

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