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O jogador

Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvz tenha ganho fortunas

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2022 | 03h00

Para Dostoievski, humildemente.

Sou igual à maioria dos brasileiros. Um tolo que joga na Mega Sena. Sei, sabemos todos, que não vamos ganhar. Mas jogo, acreditando que naquele dia tudo vai virar. Assim como já virou no Brasil e deu o que está dando, um recuo como nunca se viu, logo estaremos na pré-história. Políticos iguais, assembleias legislativas medíocres (para a estadual não voto nunca mais). Penso se vale a pena votar para prefeito. Olho as ruas, sujeira, lama correndo junto ao meio-fio, produzida por construtoras, ônibus nas mãos da bandidagem. Olhem as crateras que os caminhões deixam no asfalto das ruas, o prejuízo que dão à comunidade. Quem é o prefeito atual? Olhando a cidade abandonada, tenho certeza de que não existe. Mas nada de desânimo, assim como sei que um dia ganharei a Mega Sena, teremos políticos íntegros. Devemos sonhar com utopias.

Nessa minha idealização de mundo, abro uma gavetinha onde guardo os resultados da Mega Sena e da Lotofácil. Não jogo fora os boletos das apostas. Os boletos estão divididos em grupos de um jogo, dois jogos, três jogos. Na hora de apostar, apanho aleatoriamente alguns, perfazendo uma quantia sóbria de dinheiro. Nunca joguei bolões. Apesar da insistência da Maria, linda atendente do guichê preferencial da lotérica que frequento. Tem alguns números que repito há anos, talvez décadas. Nunca saíram. Mas insisto. Para apostas uso: o dia em que nasci, ano em que entrei para a escola, ano em que tive o primeiro emprego, ano em que vim para São Paulo, ano em que conheci Marcia, minha mulher, ano em que repeti no científico, ano em que vi o primeiro teatro de revista em Araraquara com vedetes coxudas, ano em que minha mãe morreu, ano em que Alda me olhou, ano em que tirei 10 de matemática, ano em que entrei para a Academia Paulista e também para a Brasileira, superacontecimentos e assim por diante.

Agora, vem o mais importante. Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvez tenha ganho fortunas. Ou melhor, perdido, porque não confiro. Tenho medo de, ganhando muito, minha vida se transtornar, eu assediado por centenas de “amigos” que há muito não via ou por parentes que nunca tive. Ou então, alvo da bandidagem, de milícias, medo de ser colocado em um carro cheio de gás. De qualquer modo, toda semana penso em ganhar e refrescar minha vida. Que o psicoterapeuta Hiroshi explique o que nem Freud, Melanie Klein, Jung, Lacan (favorito de Betty Milan), Adler, Bion ou algum dos 980 psicanalistas existentes no Brasil (segundo o Google) conseguiram esclarecer. 

*Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor, autor de Zero e Não Verás País Nenhum

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