O João do Rio que amava São Paulo

No início do século passado, o cronista e escritor João do Rio era o santo do mau comportamento - longe de ser apenas um cronista mundano, superficial e afetado pela pose de dândi, ele trazia em sua obra um agudo retrato da sociedade carioca daquele período. Mas, mesmo sendo "do Rio", ele também circulou por outras paragens, não apenas cumprindo obrigações de negócios mas estabelecendo laços de amizade. Assim, esteve algumas vezes na cidade de São Paulo e, ao contrário da maioria dos cariocas, que torciam o nariz para aquele município encravado no alto da Serra do Mar, João do Rio impressionou-se com o ritmo frenético e a fisionomia européia do paulistano. Foi o que revelou em um punhado de artigos que, reunidos, estão agora no livro João do Rio - Um Dândi na Cafelândia, que a editora Boitempo lança nesta semana, dentro de sua coleção Paulicéia. Trata-se de uma coletânea de 26 crônicas e conferências originalmente publicadas em jornais e revistas no período de 1908 e 1921, a maioria inédita em livro. "Creio que esses textos explicitam um dimensão pouco valorizada do João do Rio, isto é, a crônica política", comenta Nelson Schapochnik, responsável pela seleção, apresentação e notas do volume. De fato, João Paulo Alberto Coelho Barreto, verdadeiro nome do cronista, mantinha excelentes relações com o Partido Republicano Paulista, que dominava a cena política da República Velha. E isso justificou muitas de suas visitas a São Paulo, em que se encontrava com medalhões da política, como o então prefeito Washington Luís, que viria a se tornar presidente da República. O cronista gostava de ressaltar a modernização veloz que tomou conta da cidade nos anos 1910, as construções, padrões de consumo, bondes e urbanismo. Escreveu sobre a inauguração do Teatro Municipal, em setembro de 1911, comparando-o aos melhores do mundo e enaltecendo a figura de seu criador, o arquiteto Ramos de Azevedo: "Há 30 anos, Azevedo plasma o novo São Paulo. Forte, seguro, integral, num labor espantoso de todos os instantes, ele se multiplica, anima, entusiasma, dá à cidade o seu estilo." "Penso que João do Rio é um dos primeiros a incentivar a rivalidade entre Rio e São Paulo, pois estimula muito a comparação entre as cidades", conta Schapochnik, lembrando que o cronista valorizava a figura do imigrante na formação do paulista enquanto apontava as más conseqüências da mistura atabalhoada de cosmopolitismo europeu com a tacanhice nacional, que marcava a então Capital Federal. "Quantos vão a São Paulo pela primeira vez têm uma grande impressão - a impressão da capital de uma república diversíssima do resto do Brasil", escreve João do Rio. "Deixamos o Rio com um calor de chaleira. São Paulo, no sagrado planalto, acolheu-nos com a carícia da bruma e uma deliciosa temperatura." A obstinação paulista pelo trabalho, diz o cronista, vem desde o momento em que os bandeirantes invadiram o interior do País em busca de ouro e escravos. "Ele apresenta uma visão eugênica do povo formado sobretudo por imigrantes, mas silencia sobre a presença de mulatos (como ele) e pretos", observa Schapochnik. Assim, o cronista carioca mostra que São Paulo é um grande laboratório para experimentações econômicas e políticas, inauguradoras de um novo tempo. Seus textos, observa Schapochnik, estão repletos de figuras que remetem à disciplina, higiene, trabalho, progresso e racionalidade, que são facilmente identificáveis como os pontos de um programa de invenção de uma paulistanidade e coesão nacional. Nos momentos em que está na capital paulista, João do Rio esmera-se na vestimenta."Um tipo chique, elegantíssimo e fino", descreve a colunista social Alice Dubois, no jornal O Commércio de São Paulo. "Sem tolas preocupações com a moda." Em outras palavras, um verdadeiro paulistano.

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