O jeito francês de fazer filmes comerciais

A Riviera Não É Aqui e Nos Embalos da Disco oferecem alternativas à produção autoral de diretores como Resnais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Havia um só concorrente francês no recente Festival de Berlim e era Mamuth. Interpretada por um Gérard Depardieu completamente fora de forma, mas melhor ator do que nunca, a comédia de Gustave de Kervern e Benoit Delapine conta a história deste aposentado que cai na estrada a bordo de uma velha moto, em busca de comprovantes para o seu pedido de benefício social. O filme não tem nada a ver com o modelo de filme de festival (que existe). Era mais um filme comercial meio que extraviado na Berlinale. Para a dupla de diretores, mais que uma "história" eles queriam relatar uma experiência de vida.

Alain Resnais segue em cartaz como impávido colosso do estilo francês de filme-cabeça - Medos Privados em Lugares Públicos ameaça se eternizar em cartaz no Belas Artes. O público de Resnais não é, em princípio, o que vai ver A Riviera Não É Aqui e Nos Embalos da Disco. O primeiro, uma comédia dirigida e estrelada por Dany Boom, bateu o recorde histórico do cinema francês e, com mais de 20 milhões de espectadores na França, mais o público que amealhou no exterior, virou um fenômeno. O segundo, com Depardieu, mostra Franck Dubosc como um velho John Travolta que tenta reviver os embalos de sábado à noite por uma boa razão - desempregado, ele espera ganhar um concurso para poder levar o filho em férias à Austrália. Apesar da insinuante presença de Emmanuelle Béart, a história de amor de Disco é de pai e filho.

Talvez seja interessante que, mesmo com o risco de não gostar muito - mas Nos Embalos da Disco é bem simpático -, o espectador brasileiro dedique um pouco de atenção a essa produção francesa mais comercial. A França é, tradicionalmente, um dos países que, em todo o mundo, mais resistem à dominação do mercado pela máquina de Hollywood. Internamente, o cinema que faz sucesso, e arrebenta na bilheteria, é o de ação, ou então essas comédias com forte colorido local e que terminam por não funcionar para o público externo. Na entrevista que deu ao Estado no fim do ano, o diretor Dany Boon reconhecia o problema, mas observou que A Riviera teve grande público no Japão. O cinéfilo deve-se lembrar do conselho de Alfred Hitchcock a seu tiete François Truffaut, no livro com a (longa) entrevista que lhe concedeu. Hitchcock dizia a Truffaut que, ao filmar, devia pensar sempre no Japão.

Dany Boon conta a história desse funcionário que pede transferência para a Riviera, onde as condições climáticas serão melhores para a precária saúde de sua mulher. Em vez disso, é enviado para o norte. Bienvenue Chez le Ch"tis. Fabien Onteniente carrega na vulgaridade - cores quentes, música de embalo -, mas, ao contrário do chileno Tony Manero, seu objetivo não é ostensivamente político (embora seu filme discuta uma política do sexo e até do trabalho sob Nicolas Sarkozy). Franck Dubosc é ridículo numa linhagem que vai de Max Linder a Pierre Étaix e, talvez, M. Hulot. Depardieu, gordo e carismático, prende o olho, mas não mais do que Samuel Le Bihan, como o amigo sindicalista. Você só vai lamentar que Onteniente tenha deixado platônica a relação de Le Bihan com a namorada do ricaço arrogante, que o devora com os olhos.

NOS EMBALOS DA DISCO

Nome original: Disco, Gênero: Comédia (França/2008, 103 minutos). Direção: Fabien Onteniente. Censura: 12 anos. Cotação: Bom

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