O Jazz viral de Scott e grupo

A reputação de Christian Scott como talento emergente do jazz contemporâneo se consumou por aqui na quarta-feira, quando o trompetista e seu time de craques subiram ao palco do Citibank Hall para tocar uma mescla explosiva de jazz e rock alternativo, que deixou claro que o gênero está longe da extinção.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Improvisando sobre temas de seu último trabalho, Yesterday You Said Tomorrow, Scott impressionou mas, ao contrário do esperado, deixou claro que não é a única estrela de suas apresentações. Mesmo com toda a atenção que tem recebido de publicações como Downbeat e BBC, o músico se limita a solos curtos e concisos, deixando amplo espaço para sua banda explorar a dinâmica musical de composições que começam brandas e explodem em tempestades de improvisação coletiva.

Esta contundente e democrática forma de tocar, inspirada na escola de mestres como John Coltrane e Ornette Coleman, forma um diálogo constante entre todos os instrumentistas que acaba por roubar a atenção que seria destinada a Scott.

E talvez seja este o grande trunfo do músico: ser um grande líder. Como trompetista, seu fraseado é excelente, mas não inova a escola deixada por Freddie Hubbard - músico que, aliás, tem forte influência em seu trabalho. O sussurro de meia válvula de Scott, que toca frases belas e lacônicas com rara paciência quando se trata de improvisações mais brandas, como Eraser de Thom Yorke, impressiona, mas não deixa de lembrar Miles Davis.

No entanto, o alto grau de comprometimento e atenção que Scott tem com a banda, visíveis nos momentos em que dá instruções de dinâmica ao grupo e passeia pelo palco para melhor ouvir seus músicos, oferece à banda uma qualidade única e efervescente, como se a atenção de Scott a tudo que fazem os ajudasse a tocar melhor.

O grupo, com Matthew Stevens (guitarra) Kriss Fun (baixo) e Milton Fletcher (piano), tem como peça central a bateria de Jamire Williams, parceiro de Jacky Terrasson e um dos atuais prodígios de seu instrumento. As peripécias rítmicas que Williams opera em meio aos outros músicos são mais que simples frutos de uma técnica impressionante: arrastam, entortam, estilhaçam o panorama sonoro como fazia Elvin Jones, como faz Billy Hart.

É uma maneira de tocar que se intensifica com a progressão da música, ditando a dinâmica sem deixar de lado a essência africana do jazz. Ou, como brincou o baterista após a apresentação: "Uma maneira de tocar suja, mas limpa, do jeito que eu gosto que as minhas namoradas sejam."

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