O jazz no divã

Ao improvisar, o músico atinge estados únicos de consciência. O pianista e psiquiatra americano Denny Zeitlin ajuda os seus pacientes a alcançá-los

Entrevista com

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2010 | 00h00

A carreira de Denny Zeitlin desafia qualquer senso comum sobre a trajetória de um mestre do jazz. O pianista venceu duas vezes o cobiçado prêmio de crítica da revista Downbeat, tocou com a nata da música instrumental (Joe Henderson, Herbie Hancock, o influente Kronos Quartet, entre outros), compôs para Hollywood (Os Invasores de Corpos) e musicou episódios do Vila Sésamo, além de deixar seu exuberante toque pianístico em mais de trinta álbuns, o último dos quais, Precipice, lançado em maio desse ano, retrata o artista em estado de graça criativa.

Mas as conquistas só falam de uma das metades de seu currículo. A outra foi construída em parceria com o divã. Formado em psiquiatria pela universidade Johns Hopkins, Zeitlin divide, desde 1960, seu tempo entre o teclado e o consultório em São Francisco, onde atende pacientes com bloqueios de criatividade e leciona cursos de psiquiatria na universidade da Califórnia. Em entrevista ao Estado, o pianista conversou sobre a dupla carreira, estados elevados de criatividade e sua amizade com Bill Evans.

O senhor sempre foi considerado um grande pianista de jazz em atividade. Era necessário seguir duas carreiras?

Não atendo a pacientes por necessidade financeira. Faço isso porque amo a psiquiatria.

Há alguma semelhança entre as duas profissões?

A comunicação, no sentido mais profundo da palavra, é o que une os dois campos. Na psiquiatria como na música, é preciso atingir um estado de imersão total para fazer o trabalho. Quando toco, mergulho na música dos meus companheiros. Quando atendo, é como se meus pacientes fossem cantores e instrumentistas, de modo que tenho de acompanhá-los da maneira mais vivaz e sincera possível para que contem suas histórias.

E como chegou à conclusão de que seria músico e psiquiatra?

Meus pais nunca me forçaram a escolher. Quando tinha dois ou três anos, me lembro de subir no colo da minha mãe enquanto ela tocava piano. O interesse pela terapia veio alguns anos depois. Meu tio era psiquiatra e me contava histórias do trabalho. Logo, comecei a tratar dos meus amigos no recreio do colégio. Eles vinham me contar o que se passava com as famílias deles, e eu lhes aconselhava.

O senhor atende músicos?

Sim. A grande maioria dos meus clientes está em busca de facilitar a criatividade, seja isso com palavras, notas ou tintas.

Quais são os maiores problemas que enfrentam?

Descobri, ao longo dos anos, que há três tipos de problemas que atrapalham a criatividade. Um é o medo exagerado do fracasso. É o que inibe pessoas que às vezes foram criadas em famílias em que as expectativas dos pais são muito grandes. Crescem pensando que tudo o que fazem não é bom o bastante. Para elas, o palco torna-se uma arena de humilhação. Há também pessoas que sentem culpa ao se depararem com o sucesso. Em geral, são artistas que cresceram em lares em que a dinâmica familiar lhes fez sentir que são mais saudáveis ou bem-sucedidos que os parentes. Essas pessoas carregam muita culpa e muitas vezes sabotam o esforço criativo na vida adulta, pois sentem já tiveram sorte demais.

E o terceiro?

O terceiro é o medo de perder o controle. Isso afeta muitos músicos eruditos que querem aprender a improvisar. Sem a partitura, eles acham que a entrega à experiência musical resultará em algo terrível, como se fossem evacuar no palco ao invés de produzir algo belo com a música.

O senhor já passou por bloqueios criativos?

Sim, mas tive sorte de ter pais que não me traumatizaram.

E o que sugere quando trata de seus pacientes?

Cada caso é diferente, mas a meta é que busquem um equilíbrio entre filosofias ocidentais e orientais. A ocidental trabalha a lapidação do talento, a oriental mexe com a possibilidade de entrar em um estado de total imersão, de se integrar à atividade ao ponto de tornar-se pura música, dança ou escrita, e chegar ao ponto em que você se transforma na intenção de criar. É o estopim para as mais elevadas formas de criatividade.

E o senhor chega a esses estados de consciência?

Sim. Com o meu trio, muitas vezes nem sei quem está tocando o que. Sinto como se estivesse na plateia, ouvindo a música. Quando chego a esse ponto, as cores ficam mais vivas e começo a saborear sons e texturas.

E qual o gosto de um dó sustenido?

Depende do contexto. Às vezes tem gosto de leite com chocolate, outras, de filé ao molho bérnaise.

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