O Japão visto por um turista aprendiz

Oriente não se encontra com Ocidente na distopia do escritor sobre uma cultura perdida entre tradição e modernidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Autor de Corpo Presente (Planeta) e O Dia Mastroianni (Agir), o carioca João Paulo Cuenca firma-se como um dos grandes nomes de sua geração com O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente, que poderia ter sido um simples exercício de encomenda para a série Amores Expressos, mas acabou como um projeto ambicioso sobre a visão da cultura japonesa por um gaijin. Não dominar seus códigos e a língua parece ser comum a todos os turistas que se aventuram pelo Japão. Com J.P. Cuenca não foi diferente. Ele se dispôs a tornar ficção o que era bem real: o pesadelo de quem vive numa sociedade um tanto esquizofrênica, dividida entre tradições arcaicas e o capitalismo hipermoderno.

Não que Shinjuku seja diferente de Belfort Roxo ou Copacabana, como registrou Cuenca em seu blog, quando vivia em Tóquio, em 2007, para escrever o livro. Ele seria estrangeiro em qualquer lugar, mas, no Japão a língua, os costumes, a educação das crianças, as bonecas sexuais de silicone, o voyeurismo crônico dos velhos e o suicídio de adolescentes que vão mal na escola são ainda menos familiares. Assim, parece natural que o livro de Cuenca seja deliberadamente artificial, uma distopia sobre um mundo que já vive no futuro e está condenado ao passado imperfeito.

O contraditório Mishima, formado na cultura rígida dos ancestrais, talvez possa ser evocado como exemplo desse paradoxo - um homossexual paramilitar apaixonado por autores ocidentais, que fez haraquiri para defender a tradição e valores nacionalistas. Atsuo Okuda, o velho poeta que sonha abraçado à boneca Yoshiko, possuída pelo espírito de sua esposa morta, tem um pouco desse Mishima e muito do tirano que espiona a vida alheia e inferniza a do filho narrador. O livro começa com uma explosão de um vagão da linha Yamanote, ato terrorista que vem alterar o estado das coisas num lugar onde antes, segundo a visão do narrador, "havia um sentido de continuidade e ordem", agora dominado pela entropia, simbolicamente representada pelo estado a que se reduz o "estorvo" na vida do velho poeta, seu filho executivo.

Sua namorada, uma garçonete romena, é tão enigmática para Shunsuke Okuda, o filho de Atsuo, como este para ela. No fundo, esse amor expresso é uma relação sem futuro, que justifica o título do livro, um "acidente sem sobreviventes". É semelhante - e igualmente condenada ao fiasco - a relação do pai poeta com a boneca. Poderia ser uma história cínica, dessas típicas de Murakami, mas Cuenca vai além: tenta entender o Japão por meio da relação entre esse pai tirano, que come peixes venenosos como o fugu, e seu filho reprimido, fascinado pela cultura ocidental. Essa sociedade, marcada pela carência de ícones suaves, ganha, enfim, seu grande intérprete.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.