O irresistível

A difícil missão de percorrer 50 shoppings apenas com os olhos do ofício e não do prazer

Aryane Cararo,

16 de abril de 2008 | 19h11

Um dia ainda vou abrir o jornal e ler a notícia que vai mudar a vida de milhares de mulheres. Em letras garrafais, estará lá: "Cientistas descobrem o gene das compras". Logo abaixo, virá a explicação que vai economizar anos de tratamento nos divãs dos analistas: "Ciência desvenda o mistério da compulsão por compras. A resposta está em uma seqüência de DNA que só se liga aos cromossomos XX".Será o fim do sentimento de culpa por gastar todo o dinheiro em roupas e acessórios. Afinal, a natureza nos quis assim - e ela sabe o que faz. Nunca mais nenhum marido poderá perguntar: "Você já tem um vestido preto, por que mais um?". Agora ele saberá: é genético, não tem como lutar contra. Nem mesmo tratamento de choque é eficaz. Que digam as quatro repórteres deste guia, que receberam a difícil missão de percorrer 50 shoppings apenas com os olhos do ofício e não do prazer. Não deu. Foi impossível não largar o bloquinho para olhar uma vitrine. O resultado foi R$ 500 a menos na conta bancária das quatro. Kelly não resistiu a um vestido rosa estampado no Santana Parque para ir a uma festa de aniversário. "Estava muito barato", justificou. Luciana tentou ser forte. Resistiu heroicamente a um tênis de lantejoulas roxas no Pátio Paulista. Mas ele apareceu de novo no Center Norte e o flerte virou namoro. "Eu quero este tênis", decidiu. E lá foi ela, durante a folga, voltar ao Paulista. Nem todo namoro, claro, virou casamento: o sobretudo de R$ 9 mil da Dolce & Gabbana, que a hipnotizou no Iguatemi, vai ficar para o armário de outro cromossomo.Rosana ficou sem sacolas, mas levou a promessa de uma vendedora ligar quando chegasse o produto desejado. Janaina quase venceu a tentação e terminou o trabalho só com um creme em mãos. Risotos, fast food, sorvetes fizeram o cardápio das moças. Mas não se engane: elas ainda conseguiram emagrecer. Kelly perdeu 1 kg e ganhou uma desculpa: fazer compras é bom para a dieta. O que pode ser prejudicial para os pés, como atestam as bolhas de Luciana. Ou ao coração, como experimentou Janaina ao ver o sangue ferver depois de ser medida dos pés à cabeça por uma vendedora no Central Plaza. "Tem alguma coisa errada com minha roupa?", perguntou. A tarefa de encarar os templos de consumo, por sorte, não recaiu sobre mim. Da redação, longe das vitrines, fiquei feliz por não ter de me rebelar contra a genética. Afinal, não se luta contra a natureza. Aryane Cararo é jornalista e resistiu às compras por um mês.

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