O Irã segundo Mania

No País para lançar novo filme, diretora diz que "iranianos estão desorientados"

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h07

Em uma semana em que o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf vem ao Brasil e pede ajuda e solidariedade aos colegas presos atualmente pelo regime do Irã; em que Jafar Panahi (em prisão domiciliar no Irã, à espera do dia em que irá para a cadeia, onde passará seis anos, e outros 20 sem filmar) exibe seu Isto Não É Um Filme na 35.ª Mostra, enquanto tantos outros cineastas estão presos (incluindo Katayoun Shahabi, produtora de Um.Dois.Um,, de Mania Akbari, que também é atração da Mostra), não é exagero dizer que há uma "diáspora cinéfila iraniana".

Mania Akbari concorda: "O regime iraniano está destruindo nosso cinema. Ou estamos presos ou fugindo. Amo meu país, meu povo, minha cultura. Mas estamos muito perdidos", disse ela, que não foi presa, mas se autoexilou em Londres, e não sabe quando ou se volta ao seu país, onde é uma das mais prestigiadas atrizes e diretoras. Convidada da Mostra e estrela de Dez, de Abbas Kiarostami, Mania está se dividindo entre festivais de cinema pelo mundo (pedindo ajuda para libertar Katayoun) e Londres, onde filma um novo longa. "Imagine que no Irã até um roteiro tem de ser submetido à censura. Imagine como é trabalhar o tempo todo praticamente 'podando' sua criatividade com medo dela não ser aprovada. Um.Dois.Um foi aprovado, mas não pode estrear lá porque a produtora está presa. E injustamente", disse Mania ao Estado, em uma conversa que misturou entrevista, almoço, papo de mulher.

E como é ser mulher e fazer cinema no Irã? "Você sabe a imagem que a iraniana tem no mundo. Nós não somos passivas, mas sem saber o que fazer. E lá a mulher não pode fazer muito se não for de uma família mais liberal, se não tiver autorização dos pais e do marido para trabalhar."

"Mas a mulher iraniana é muito forte. É preciso força para resistir", rebate Renata de Almeida, diretora da Mostra. "Por isso que lá a religião é muito forte, a repressão é muito forte sobretudo sobre a mulher. E sem acesso à informação, a mulher fica sem instrumentos para mudar. A iraniana precisa conhecer melhor a si mesma para, então, mostrar-se ao mundo, sem perder a identidade."

Mania não é uma cineasta feminista, mas admite que é impossível para ela, que realizou também 20 Dedos e 10+ 4 (espécie de continuação de Dez), não falar de relacionamentos e, claro, da questão da mulher na cultura muçulmana e iraniana. "Um.Dois.Um é sobre um homem que joga ácido no rosto da namorada quando descobre que ela ama outro. Em uma sociedade em que tudo é baseado na beleza da mulher, como ela reencontra a autoestima?"

Quando confrontada com a ideia de que, em geral, várias sociedades exageram ao valorizar demais a estética, aprisionando a mulher atrás de um 'ideal de beleza', ela rebate: "Se no Oriente a mulher tem de provar sua individualidade, escondida atrás de um véu, de códigos de vestimenta e conduta, que tornam todas quase iguais, em países como o Brasil as mulheres muitas vezes acabam escondidas atrás de uma corpo superexposto. Nenhum dos opostos é bom. Mas encontrar o equilíbrio é difícil."

O novo longa de Mania conta a história de um casal iraniano que vai passar férias em Londres. "Ele quer voltar. Ela não. Descobriu o mundo. E agora?" Exato. E agora, Irã? "Hoje percebo que o mundo é maior. Esta minha vinda ao Brasil é muito especial." Não por acaso, o filme terá continuação. "Depois de não voltar, esta mulher quer viajar por vários países e 'conhecer' homens em cada um deles. Para descobrir se encontra o homem que quer, que merece."

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