O inventário humano de uma população

Cine-Teatro Guararapes apresentou sua maior lotação na segunda-feira à noite

LUIZ CARLOS MERTEN / RECIFE, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2013 | 02h06

Houve anteontem à noite uma reação do público aqui no Recife e o resultado foi que o Cine-Teatro Guararapes apresentou sua maior lotação na segunda-feira à noite. Mesmo sem lotar, a sala ficou abarrotada de espectadores que aplaudiram especialmente uma produção local, Rio Doce/CDU, de Adelina Pontual. O filme, um documentário, acompanha a viagem completa de um ônibus que faz a linha Olinda/Recife, passando - e não é mera coincidência - pelo Centro de Convenções de Olinda, que vira a vitrine de exibições do Cine PE.

O conceito do filme é simples e direto, e o estilo de filmagem torna-se um tanto monocórdico. A diretora inventou um ângulo muito bonito - a câmera na lateral do ônibus, captando, no vidro, a projeção dos locais pelos quais ele se desloca. É o mesmo ângulo, sempre. Nas diversas paradas, ela entrevista as pessoas, compondo um inventário humano e rico da população. Essa escolha do segmento - estudantes, donas de casa, feirantes, classes C e D - revela a preocupação social de Adelina. O problema nem é dela - as pessoas muitas vezes falam correndo e usam muitas expressões locais. Ficou difícil entender do que o público do Recife ria tanto, até porque as gargalhadas e aplausos o tempo todo se superpunham aos novos depoimentos.

O repórter brincou com a diretora que deveria ter visto o filme dela com legendas, para não prejudicar o entendimento. Se o longa ficou prejudicado - mas não foi um problema de som; ele tem andado impecável -, a sessão de curtas, precedendo o longa, foi a melhor do 17° Cine PE. Os quatro filmes, em diferentes técnicas e estilos, ofereceram bom material para usufruto estético - e especulação crítica.

A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins, evoca um aspecto nunca abordado da resistência ao regime militar. Nos anos 1960, houve um boom dos quadrinhos eróticos no País, que a censura do regime, em nome dos valores familiares (senão da segurança nacional), houve por bem combater. Personagens dos gibis lutam por sua existência - e liberdade - e o filme trabalha texturas, imagens e mídias com criatividade.

Três no Tri, de Eduardo Souza Lima, evoca uma imagem icônica da fotografia brasileira. Lembram-se do jogo do Brasil contra a Checoslováquia, na Copa de 70, no México? Após a euforia do gol, a explosão de Pelé, Tostão e Jairzinho. A foto correu mundo - guardadas as proporções, o diretor diz que é a nossa imagem do Che morto -, mas Souza Lima não quer falar só de fotografia nem de futebol. Fala de muitas coisas mais, inclusive da ditadura (e o uso que fez da imagem), mas principalmente revela o autor, o fotógrafo Orlando Abrunhosa, da antiga revista Manchete. Ele próprio foi - é - um personagem extraordinário. Seu sonho era ser cantor, e o filme lhe permite isso.

À Luz do Dia, de Joana Nin, cria um interessante jogo de texturas - usando filmes domésticos da família da diretora - para que ela fale sobre a preservação da memória e, embora não se solucione muito bem, tem seu encanto. Por bons (e até muito bons) que sejam esses curtas, O Fim do Filme, de André Dib, é melhor. Numa locadora, o dono vive advertindo o funcionário que conta o fim dos filmes. Ele encontra uma cliente especial, que discute justamente um desses finais, com seus múltiplos significados. O casal é encantador e sua aproximação é feita com sensibilidade, enquanto o diretor, por meio dos filmes dentro do filme, brinca de 'estilo'. Emula um western (spaghetti?), um filme francês da Nouvelle Vague e um drama existencial à Michelangelo Antonioni. Impossível, para o cinéfilo, não viajar. O Fim do Filme é o começo, tomara, do que promete ser uma bela carreira.

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