"O Invasor" chega às locadoras

Na recente série de debates paradiscutir a estética e a cosmética da fome - uma realização daAssociação Paulista dos Críticos de Artes, a APCA, compatrocínio do Espaço Unibanco de Cinema e do Canal Brasil - ,umdos filmes mais citados foi O Invasor, de Beto Brant. Nomomento em que o foco está na representação que o cinemabrasileiro faz dos espaços da favela e do sertão, um filme comoesse não pode nem deve ser esquecido. Você não precisa amar OInvasor de paixão para admitir que Beto, ao seguir a vertentede Murilo Salles em Assim Nascem os Anjos, realiza ummovimento importante, que é estabelecer a ligação entre aperiferia e o centro do poder.Isso vem representado, metaforicamente, na história doassassino profissional contratado por uma dupla para matar osócio deles numa empresa construtora. O cara executa a função,mas logo em seguida instala-se na firma, levando pânicoprincipalmente ao mais fraco, emocionalmente, dos homens que ocontrataram. Para complicar, o invasor inicia uma relação desexo com a filha da vítima, que só vai consolidando seu poder dedesestabilização de uma certa ordem estabelecida.Tudo isso é muito interessante, até porque Beto e seuroteirista, Marçal Aquino, trabalham a questão do invasor em mãodupla. O personagem interpretado pelo titã Paulo Miklos invade ocenário dos poderosos, mas numa cena ele realiza o percursoinverso e é a garota rica que invade a periferia, conhecendo umlado da vida na cidade grande que lhe era estranho. Nada disso éirrelevante, mas o que pode provocar a antipatia em relação aO Invasor é justamente a cena de maior empatia com o público- aquela em que Miklos, diante do espelho, dirige-se à platéiade forma depreciativa e aponta com o dedo, como se tivesse umaarma fictícia prestes a disparar.Vale para qualquer peça em cartaz. O público de classemédia ressente-se do fato de ver, nas telenovelas, um certopadrão de comportamento dos astros e estrelas globais. Seja pelopadrão Globo de qualidade ou pela (auto)censura, palavrões sãovetados nas novelas, ouve-se no máximo um m.. ou uma b... Naspeças que os globais interpretam, a primeira coisa que elesfazem é soltar o palavrão, muitas vezes até mesmo de maneiragratuita. Sabem o que fazem. A platéia saturada de naturalismoadora ver seus ícones dizerem palavras de baixo-calão.A reação do público dos shoppings à cena de Miklosdiante do espelho vai por aí, ainda mais que o cara é um titã,pôxa. Mas ela possui um outro significado. Ao fingir que disparacontra a gente, o invasor está nos colocando a todos no mesmosaco. Alienados ou conscientes, não importa. Somos todos esseBrasil que o diretor quer denunciar, afundado em corrupção eviolência. A crítica é contundente e procedente, também, mas oque faz o diretor generalizar e apontar o dedo acusador,colocando-se numa discutível posição de superioridade moral?Enfim, é uma questão para ser discutida. mas,independentemente das restrições morais que se possam fazer aO Invasor, o filme possui inegável empatia com o público aotratar de temas polêmicos da atualidade brasileira. E, o maisimportante, confirma que Beto sabe filmar como poucos diretoresde sua geração. Que ele é bom já era fato conhecido desde OsMatadores. E, mesmo que seu filme anterior, Ação entreAmigos, também não fosse completamente satisfatório, tinha omérito de subverter a visão apaziguadora da guerrilha que BrunoBarreto propôs em O Que É Isso, Companheiro?Beto filmou O Invasor em Super 16 e depois fez otransfer, que é como se chama hoje a antiga kinescopagem. Issodeu a seu filme uma textura especial que valoriza O Invasor.O lançamento é simultâneo em DVD e vídeo. E o disco digital éenriquecido por extras que incluem o making of da produção.O Invasor. Brasil, 2001. Direção de Beto Brant.Lançamento da Europa. Vídeo e DVD (R$ 44,90).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.