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O intrépido que rasgou a multa

Humilhado e xingado de analfabeto, o guarda Cícero foi de impressionante dignidade

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 03h00

Je donne des aulas na Sorbonne. Foi o que disse um desembargador ao rasgar a multa na cara do guarda. Que orgulho deve ter sentido dessa coragem. Tornou-se homem, desafiador. Levitou. A frase em francês, por ele dita ofenderia os ouvidos de Fanny Marracini, que morreu quase aos 100 anos, depois de ter ensinado dezenas de gerações de araraquarenses a ler e a falar francês. Mon Dieu! exclamaria horrorizada, porque amava como poucos a língua. Nunca me esqueço do primeiro dia em que entrou na classe, nos levantamos e ela cumprimentou: “Bom dia, meus alunos”. Seguido por: “Esta é a primeira e última vez que vocês ouvem falar português em minhas aulas”. Emendou: “Bonjour mes enfants”. 

Realmente, dali para a frente só ouvimos francês e aprendemos, muitos ainda o usam como segunda língua. Pessoas como Sidney Sanchez, que chegou ao Supremo Tribunal Federal, Zé Celso que leu L’Être et le Neant no original, a Luis Roberto Salinas Fortes, que traduziu Sartre e se tornou professor de filosofia de primeira na USP ou o irmão dele, Hugo Fortes, advogado de nomeada que leu Balzac inteiro aos 20 anos também no original, ou Celso Lafer, o humanista e diplomata.

Fanny ao ouvir a frase em suposto francês, diria, acabrunhada: Épouvantable. A Aliança Francesa deve ter ficado estarrecida e preocupada: se as pessoas pensam que isso é francês, não é não. Também não é gíria, nem linguagem de malandro. Onde terá ele aprendido tal língua? Na Sorbonne não foi. Ali estudaram André Breton e Susan Sontag, Madame Curie e Lévi-Strauss, Sartre e Simone (vejam a intimidade), Derrida, Jorge Coli, FHC e Celso Furtado. Se o jurista queria impressionar, porque não se exibiu em curdistão, ou sânscrito, na língua dos Keftin, na dos hititas, quem sabe no ugarítico?

Lembrei-me de uma história acontecida comigo e com o jornalista Humberto Pereira, o criador dessa joia que é o Globo Rural. Estávamos em Paris, décadas atrás, e ele me viu saindo da Sorbonne, nas proximidades da Rue Cujas, onde eu estava hospedado. “O que estava fazendo aí?”, ele indagou. Sorri: “Ora, estudo aqui, pós-graduação”. Mostrei três livros comprados na Livraria LGDJ, ali vizinha, especialista em obras jurídicas, a pedido de meu amigo Fernando Passos, advogado de minha terra. Pereira abriu os olhos deste tamanho, mas entendeu, me fez um sinal: você não perde por esperar. Não revelei que vi uma porta por onde alunos entravam, fui atrás, queria ver por dentro escola tão famosa. Andei um pouco, fui interpelado por um bedel e posto para fora. 

Na mesma viagem, cheguei a Milão e Humberto estava lá com sua mulher Hebe. Almoçamos e fomos conhecer o Teatro Scala. Há coisas necessárias. Entramos, Humberto e Hebe desapareceram. Certo momento, eu estava na plateia, havia pouquíssimos turistas, sentei-me para sentir a atmosfera, esperando ver de repente Maria Callas. Foi quando ouvi: “Eu tenho uma mula preta tem sete parmo de artura/ A mula é descanelada tem uma linda figura/ Tira fogo na carçada no rampão da ferradura...” O mais puro Tonico e Tinoco. Olhei em volta e vi em um dos camarotes Humberto a cantar e a me acenar sorridente. Entendi. Na saída ele me disse: “Você estudou na Sorbonne, eu cantei no Scala. Estamos quites”. Nos regalamos com um belo jantar. Hoje penso, será que assim o desembargador estudou na Sorbonne? Não parece coisa de currículo de ministro bolsonarista?

O que me incomodou foi um homenzinho que parecia cordial, plácido, bonachão, de repente levado pela insegurança a se transformar em virulento, a dar carteirada sem propósito e humilhando um servidor público ao xingá-lo de analfabeto. Dominado por um complexo de inferioridade, buscou afirmação diminuindo o outro. Ora, segundo aprendi na escola e confirmo aqui no Aurelião, analfabeto é quem não conhece o alfabeto. Quem não sabe ler e escrever.

Fiquei intrigado. Como pode ser analfabeto o guarda que escreve a multa? Se estava escrevendo significa que foi à escola, aprendeu a escrever e a ler. Não soubesse ler, não saberia nem que lei aplicar naquele homenzinho da lei, surpreendido ao contrariar uma lei. Portanto, tinha formação o guarda Cícero. Aí, o indignado mostrou sua importância falando francês errado e ignorando a lei que ele deveria defender. Ou seja, aquele senhor foi surpreendido com as calças na mão como se costuma dizer. Ficou feio, passou vergonha e o Brasil inteiro viu. Viralizou, virou meme. Não sei quem é superior a um desembargador na hierarquia jurídica. Mas o formidável desembargador xingaria um juiz do Supremo de analfabeto? 

Naquela hora me veio velhíssima história, ainda de minha infância. No quartel, o marechal deu uma raspança no tenente. Este, irritado, transferiu a raspança ao major, que por sua vez descontou no brigadeiro, que foi em cima do coronel, que acabou com o tenente, que advertiu o capitão. Aí, o capitão deu em cima do sargento, que foi para cima do cabo, que pensou terminar no soldado. Este olhou em volta e chutou o indefeso cachorro. Último elo da cadeia. O guarda Cícero foi de impressionante dignidade. 

 

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