O intérprete da angústia e das dúvidas existenciais

Neto do pintor Ernest Josephson - um gênio da pintura que enlouqueceu por causa da sífilis e achava que era Deus e Cristo -, Erland Josephson nasceu em Estocolmo, em 1923. Ele viveu toda a sua vida na Suécia, e na capital, onde morreu no domingo, aos 88 anos. A notícia de sua morte vazou na internet justamente quando outro sueco ilustre, e idoso, Max Von Sydow, estava no tapete vermelho do Oscar, indicado para o prêmio de melhor coadjuvante, por Tão Forte e Tão Perto. Von Sydow e Josephson foram atores de Ingmar Bergman, os preferidos do grande diretor.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2012 | 03h07

Cada um marcou uma fase. Von Sydow estrelou os filmes dos anos 1950 e 60, A Fonte da Donzela, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, O Rosto, Através de Um Espelho, A Hora do Lobo, Vergonha, Paixão de Ana, A Hora do Amor. Josephson se tornou mais frequente na obra de Bergman depois disso. Fez uma não menos impressionante sucessão de clássicos bergmanianos - compartilhou a cena de A Hora do Lobo, A Paixão de Ana e A Hora do Amor, se tornou cada vez mais imprescindível em Gritos e Sussurros, Cenas de Um Casamento, A Flauta Mágica, Face a Face, Sonata de Outono, Fanny e Alexander, Na Presença de Um Palhaço, Sarabanda.

Após a morte de Bergman, em 2007, Josephson em entrevista a um jornal sueco, explicando como se sentia. "Era muito apegado a ele. Tivemos uma vida divertida, emocionante e interessante. Ele foi decisivo na minha carreira de ator." Foi mais ou menos o que Von Sydow também disse ao repórter durante a Berlinale, ao ser entrevistado por Tão Forte e Tão Perto, o longa de Stephen Daldry que o levou ao Oscar (mas outro velhinho, Christopher Plummer, ganhou a estatueta da categoria).

Josephson interpretou personagens austeros para Bergman. Expressou muitas vezes as dúvidas existenciais que consumiam o autor. Tormentos do sexo, silêncio de Deus. Fazia isso com contenção. Crispava a voz, os gestos. Não precisava de muito mais para tornar perenes a angústia e o turbilhão interiores. Ele sofria de Mal de Parkinson, que foi se agravando e, ultimamente, vivia isolado. Embora a parceria com Bergman tenha sido a mais importante, ele também fez filmes de outros autores viscerais - Andrei Tarkovsky, Theo Angelopoulos (que morreu em janeiro).

Com Tarkovsky, o artista cuja obra equivale a uma tentativa de esculpir/modelar o tempo, Josephson fez filmes como Nostalgia e O Sacrifício. Com Angelopoulos, foi O Olhar de Ulisses, ou Um Olhar a Cada Dia. Erland Josephson foi também escritor. Publicou várias novelas, contos, poesias e peças. O teatro, além do cinema, foi outro amor. Por mais que amasse a arte da representação, ela não lhe bastava e Josephson aventurou-se até pela direção. Em 1980, seu longa The Marmalade Revolution integrou a seleção do Festival de Berlim, colhendo boas críticas.

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