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O intelectual errante

Neste mundo abalado, a voz equilibrada de Albert O. Hirschman há de nos fazer falta

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 03h00

Albert O. Hirschman era um judeu-alemão que, assim como seus compatriotas Hannah Arendt e Walter Benjamin, parecia ter lido todos os livros e falar todas línguas. Nascido em Berlim no ano de 1915, ele fugiu em 1933 da Alemanha nazista, onde começara a estudar economia e a militar no Partido Socialista. Continuou seus estudos na França, em Londres, Trieste e se especializou em economia italiana, enquanto viajava com frequência a Paris, onde ajudou a embarcar para os Estados Unidos muitos intelectuais, professores e políticos perseguidos pelo fascismo. Durante a Guerra Civil Espanhola, ao lado de George Orwell, foi membro das Brigadas Internacionais, por simpatia ao Poum, um pequeno partido de inspiração trotskista. Acabou ferido na guerra, mas sempre se recusou a falar sobre sua experiência na Espanha. Mais tarde, seguiu para os Estados Unidos, onde, além de outros doutorados, continuou sua luta intelectual em prol do socialismo democrático.

Eu o conheci no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, uma instituição admirável, que acolheu Albert Einstein quando ele se refugiou nos Estados Unidos. Ali, os membros não precisam lecionar, apenas pesquisar. Eles dispõem da biblioteca da universidade e de recursos para organizar simpósios e conferências relacionadas aos temas em que trabalham. Hirschman não gostava de lecionar, preferia a pesquisa. Trabalhou para a Fundação Ford e para o Banco Mundial e lecionou nas melhores universidades. Viveu vários anos na Colômbia e conhecia como ninguém os problemas da América Latina (e do mundo inteiro). A Claves de Razón Práctica acaba de publicar uma nova edição de seu último livro, La Retórica Reaccionaria, em uma nova tradução que traz um excelente e extenso prefácio de Joaquín Estefanía, bem como um posfácio não menos interessante de Alberto Gerchunoff.

A obra de Hirschman não é muito conhecida na Espanha, embora o seja na América Latina, nos Estados Unidos e no resto do mundo ocidental, e muitos, como Estefanía, lamentam que ele nunca tenha recebido o Prêmio Nobel de Economia, o qual merecia pela originalidade, riqueza e amplitude de seu trabalho. Decepcionado com os grandes esquemas revolucionários aos quais aderira na juventude, defendeu a ideia de pequenos avanços econômicos e sociais, entre eles a liberdade, para garantir o progresso e abrir ao Terceiro Mundo a possibilidade de desenvolvimento e democracia política. Ao mesmo tempo que, nos seus ensaios, refletia sobre essa ação prática e “o direito de se contradizer”, ele combatia economistas liberais como Friedrich Hayek – apesar de o livro O Caminho da Servidão ter lhe causado um grande impacto – ou Milton Friedman, para não falar dos Chicago Boys chilenos que haviam se aliado a um ditador para promover as reformas econômicas que propunham.

Chegara ele à conclusão de que o comunismo estava morto e de que a única solução justa para os problemas da sociedade humana – desigualdade, exploração, ditaduras e enormes rupturas sociais – era o capitalismo à maneira escandinava, moderado pelo voto popular, pela seguridade social e por outras medidas adotadas pelo Estado para reduzir as distâncias e melhorar a condição econômica de trabalhadores e camponeses? Ele nunca o disse explicitamente, mas tenho a impressão de que sim, embora o homem sábio e culto que conheci também fosse muito prudente e não gostasse de se expor muito, pensando no meio em que vivia e escrevia.

Este livro, La Retórica Reaccionaria, começou a ser escrito na época de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que aterrorizaram populistas e progressistas de todo o mundo porque, embora conservadores, ambos os chefes de estado promoveram reformas liberais muito ambiciosas que, entre outras coisas, enterraram o comunismo e pareceram iniciar o renascimento da democracia e do capitalismo. Mas não foi assim que aconteceu, e o que veio a seguir foi, antes de tudo, um novo populismo de direita, tão nefasto quanto os populismos de esquerda, que – como aconteceu com Donald Trump nos Estados Unidos e Boris Johnson no Reino Unido – desequilibrou com sua demagogia as ideias que afirmava encarnar.

A tese de La Retórica Reaccionaria é muito simples e, segundo Hirschman, nasceu das objeções de Edmund Burke à Revolução Francesa do século 18. Em Reflexões sobre a Revolução na França, Burke argumentou que, ao contrário do que alegavam os revolucionários, as reformas promovidas pela guilhotina e pelas revoltas populares, em vez de revolucionar a sociedade na direção certa, destruiriam todos os avanços sociais e políticos alcançados até então. Essa tese, com os acréscimos sutis da perversidade, da futilidade e do risco, será repetida por uma longa lista de pensadores – entre os quais Hirschman cita o enlouquecido Joseph de Maistre, que acreditava que Deus havia mandado a Revolução Francesa para castigar os seres humanos por sua impiedade – até mesmo por economistas rigorosos como Hayek ou pelo tão moderado Isaías Berlin, que sempre defendeu uma posição muito semelhante à sua e fomentou o diálogo entre esquerda e direita.

A voz de Albert O. Hirschman há de nos fazer falta neste mundo abalado, quando menos se esperava, por um coronavírus que causou estragos quando acreditávamos que os seres humanos e a ciência haviam conquistado o mundo natural. Mas não foi assim que aconteceu e, quando a pandemia passar, os sobreviventes deste cataclismo medieval vão despertar num mundo empobrecido, no qual o Estado terá crescido em toda parte, sufocando a liberdade mais do que já sufoca, no qual os novos populismos, impregnados de racismo e nacionalismo irracional, se preparam para acabar com as últimas instituições e tomar o poder. Não será fácil, claro. A batalha será duríssima e nela poderia ter um papel fundamental alguém como Hirschman, que acreditava nas ideias e no diálogo entre adversários, que desconfiava de esquemas totalizantes, que propunha avanços modestos, sem violência e sem vítimas, resultantes de um diálogo em que os antigos inimigos chegassem a consensos e a acordos concretos.

É a mais bela postura e, em seus livros, Albert O. Hirschman a defendeu de maneira persuasiva. Era um homem decente e limpo, de enorme cultura e, quando já estava bem avançado nesse último livro – ele próprio o conta em suas páginas – percebeu que a retórica “reacionária” que descrevia também podia se aplicar, milimetricamente, a uma esquerda que, sobretudo na América Latina, era sectária e intolerante e tendia a ver as coisas de um só lado. Ele então tentou mudar o título do ensaio e trocar “reacionária” pela palavra “intransigente”, mas o editor não permitiu. No entanto, no sexto capítulo de seu ensaio, essa nova fórmula é bem explicada, e os elogios de Gerchunoff, dos quais compartilho plenamente, premiam o realismo e o senso prático de Hirschman. É de atitudes como as dele que vamos precisar nesta nova etapa incerta e nebulosa que se abre diante de nós: desconfiar das grandes configurações que prometem trazer o paraíso à Terra e promover aquilo que, por mais insignificante que pareça, faça avançar a justiça e a liberdade e retroceder a hostilidade e a política convertida em religião, onde há mocinhos e bandidos e só um deles sobreviverá. O paraíso está muito longe para que consigamos trazê-lo à Terra. Entre os ideais possíveis está algo mais modesto e eficaz, no qual Hirschman apostou: aprender a conviver, pôr fim à brutalidade, dar à democracia e à liberdade o dinamismo que perderam, salvar o que ainda é possível no sinistro panorama futuro que se desenha diante de nós. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

É AUTOR DE ‘PANTALEÃO E AS VISITADORAS’ E ‘CONVERSA NO CATEDRAL’

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