O insólito mundo de Ionesco

Camilla Amado tinha 16 anos e morava na Suíça quando estreou nos palcos. Era 1956, e a peça, Pega Fogo, do francês Jules Renard. Entrou no elenco graças a um teste cujo resultado - prenúncio da vocação de toda a vida - muito a surpreendeu: na hora de dizer o texto, a menina tímida travou de pavor. "Fiquei grata ao teatro por ter me acolhido em toda a minha fragilidade", relembra, aos 71 anos.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2011 | 00h00

Essa vulnerabilidade, Camilla, feita professora e diretora, transmite a seus alunos, e também aos atores que dirige na montagem dos textos A Lição e A Cantora Careca, de Eugène Ionesco (1909-1994). Os dois compõem o espetáculo que está em cartaz no Rio, no teatro da Maison de France.

A montagem de Ionesco é a mesma da estreia de Camilla no Brasil, um ano depois do episódio na Suíça. A jovem atriz viveu a aluna de A Lição e a Senhora Martin de A Cantora Careca.

Da experiência, lembra-se da direção de Luís de Lima, responsável pela introdução e tradução de Ionesco por aqui, da catarse entre atores e espectadores diante da novidade que seu teatro representava, da responsabilidade de substituir Glauce Rocha, dos oito anos de sucesso.

Agora na direção, em parceria com Delson Antunes, Camilla trabalhou com os atores questões que considera fundamentais quando se trata de Ionesco: a constatação da inequívoca solidão do ser humano, sua condição de ente incompleto e finito. "Temos que pensar que o sujeito na nossa sociedade está sendo anulado, isso desde Ionesco. A falta que todos temos não é preenchível com nada. O ator tem que enfrentar o abismo do vazio", dizia Camilla ao Estado ao fim da apresentação fechada a convidados da terça.

Em sua primeira incursão pelo surrealismo que é marca de Ionesco, a atriz Renata Paschoal, que se aventura como protagonista, buscou entender "a tragédia por trás da comédia". Ela interpreta os papéis que no passado foram de Camilla, sua professora. "O teatro dele não é do absurdo, é realista. Tudo que está aqui pode acontecer".

Em A Cantora Careca, a Senhora Martin e o marido (Xavier) se dão conta, depois de verificar "coincidências incríveis", que só podem ser casados, visto que partilham o mesmo endereço e filhos. É apenas uma das situações insólitas da peça, que tira risadas da plateia justamente por isso. O elenco tem ainda Thelma Reston, Maria Gladys e Roberto Frota.

A LIÇÃO E A CANTORA CARECA

Teatro Maison de France. Av. Presidente Antonio Carlos, 58, (21) 2544-2533. 5ª a sáb.,

às 20 h; dom., às 19 h. R$ 60/ R$ 80. Até 8/5.

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