O INFERNO VISTO NA INFÂNCIA Ficção do israelense Aharon Appelfeld sobre o nazismo tem garoto como narrador

MARCIO SELIGMANN-SILVA

MARCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP, AUTOR DE A ATUALIDADE DE WALTER BENJAMIN, DE THEODOR W. ADORNO (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA), O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h12

Aharon Appelfeld, apesar de ser um dos principais escritores israelenses, ainda é relativamente pouco conhecido no Brasil. Para reduzir essa falha, a editora Perspectiva acaba de publicar seu romance Expedição ao Inverno, com uma acurada tradução direta do hebraico e um posfácio esclarecedor de Luis S. Krausz.

Appelfeld, nascido em 1932 em Czernowitz, cidade romena que foi parte do império austro-húngaro até 1918, provém de uma rica cultura cosmopolita de língua alemã e judaica de onde procedeu também o poeta Paul Celan. Como aconteceu com Celan, Appelfeld traz como corte na sua vida e estampada em sua obra as marcas de Auschwitz.

Aos 8 anos, confinado em um gueto, após presenciar o assassinato de sua mãe, ele sobreviveu fugindo de um campo de concentração. Durante a Segunda Guerra, perambulou entre marginais e prostitutas pelas florestas da Europa oriental. Essa experiência reaparece em suas obras. Appelfeld parte tanto dessa vivência radical como de um projeto de apresentar Auschwitz a partir das bordas. Sua ideia é que o real bruto que ocorreu no centro do genocídio judaico europeu na Segunda Guerra, ou seja, as câmaras de gás dos campos de extermínio, não se deixam representar. Esse buraco negro só pode ser indicado pela alusão.

Em Expedição ao Inverno lemos um texto narrado em primeira pessoa, por Kurt, ou simplesmente Kuti, um garoto que, como o autor, vive o período de ascensão do nazismo e tomada de poder de sua pequena cidade, próxima a Czernowitz.

Os habitantes do lugar, que representa alegoricamente os pequenos povoados judaicos da Europa oriental, orbitam em torno de um rabino com poderes mágicos - uma figura conhecida na tradição mística judaica e que representa no romance uma espécie de último bastião da tradição. Ele é a única força contra o esquecimento da religião e dos costumes. Cego, como Tirésias, guarda o passado e sempre indica como meio de cura o mesmo remédio: ler e copiar a Torá, o livro sagrado dos judeus.

Já outro personagem, Laufer, representa o papel do "louco da aldeia". Ele encarna a figura também tradicional de um profeta apocalíptico que tenta prevenir a todos, mostrando que a ascensão de Hitler significaria uma tragédia para os judeus.

A população resiste tanto ao rabino como a Laufer, para, no fim, com a tomada do poder por oficiais alemães, reconhecer que os dois tinham razão: o passado e a tradição não deveriam ter sido esquecidos e o presente reservava uma sorte terrível para esses judeus "esquecidos".

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