O inferno que veio do céu

Em 2007, no sexto aniversário do 11 de Setembro, o jornal U.S.A. Today computou cerca de trinta livros de ficção inspirados de alguma maneira pelo ataque às torres gêmeas e, com o respaldo de críticos e acadêmicos, concluiu que o atentado terrorista ainda não havia gerado uma obra literária à altura da sua magnitude. Ponderou-se que era assim mesmo, que o melhor da ficção criada à sombra da guerra do Vietnã só surgira depois do fim do conflito. Segundo Norman Mailer, as grandes tragédias coletivas levam dez anos para ser processadas e plasmadas em ficção de alto nível. Está chegando a hora de o 11 de Setembro produzir finalmente o seu O Emblema Rubro da Coragem, o seu Vinhas da Ira, o seu Os Nus e os Mortos (que Mailer processou e plasmou em apenas dois anos).

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

Passados nove anos e oito meses da derrubada do World Trade Center, que romances destacar? Listei uma dezena, direta e indiretamente ligados ao terrorismo jihadista (Terrorista, de John Updike; American Taliban, de Pearl Abraham) ou especificamente aos atentados (Homem em Queda, de Don DeLillo) e suas consequências na psique americana (A Estrada, de Cormac McCarthy). Um deles (e dos melhores) talvez não mereça ser considerado, pois seu autor não é americano nem vive na América e sua trama tem Londres como pano de fundo: refiro-me a Sábado, do inglês Ian McEwan, que aborda obliquamente o pânico instaurado pela Al-Qaeda em Manhattan.

Pelo mesmo critério, teríamos de desqualificar os contos de The Second Plane, de Martin Amis, e, lamentavelmente, Terras Baixas, do irlandês Joseph O"Neill, que o exigente James Wood considera um dos romances mais notáveis do "pós-colonialismo". Seu protagonista é um imigrante holandês obrigado pela queda das torres a deixar o confortável loft em que mora com a mulher para viver provisoriamente num hotel. A súbita e compulsória mudança de pouso é o menor dos transtornos do casal, que, a exemplo dos casais de dois outros romances dessa vertente - A Disorder Peculiar to the Country (de Ken Kalfus) e The Writing on the Wall (de Lynne Sharon Schwartz), ambos ainda à espera de tradução -, padece os estertores de uma crise conjugal. Ou, metaforicamente falando, um atentado aos indissolúveis laços do matrimônio.

O romance de Kalfus é uma sardônica comédia de costumes, que começa na manhã de 11 de Setembro, com uma esposa curtindo intimamente a provável morte do marido numa das torres e este crente que ela estava a bordo de um dos aviões sequestrados. Muito engraçado, é uma das três ficções mais notáveis que o "nine eleven" inspirou, já descontada a que não li mas teve ótima repercussão, O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, traduzida pela Alfaguara. Não escondo minha predileção por Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, cujo "herói" é um erudito Holden Caulfield de 9 anos que perdeu o pai no atentado e cujo avô paterno perdera o amor de sua vida no bombardeio à cidade alemã de Dresden pelas forças aéreas americanas e britânicas, no final da Segunda Guerra Mundial.

Dresden, 13-15.02.1945; Nova York, 11.09.2001: duas atrocidades históricas, inteligentemente paragonadas por Foer, dois exemplos da barbárie aérea tão temida por Santos Dumont.

Até hoje se discute se foi mesmo necessário jogar tantas bombas sobre cidades como Dresden e Hamburgo, com o Reich nazista já de quatro. Em Dresden, 3.600 aviões despejaram em dois dias 6.500 bombas incendiárias e 4 toneladas de bombas explosivas, destruindo 39 km² e matando 25.000 pessoas. O próprio Churchill condenou os raids aéreos, a que chamou de "atos de terror", embora os pilotos da RAF nada pudessem fazer sem o seu consentimento. Já Thomas Mann e outros alemães exilados exultaram com a razia aliada. Em seu ódio ao nazismo não havia espaço para a compaixão.

O então soldado e prisioneiro dos alemães Kurt Vonnegut Jr., americano de Indianápolis, não só testemunhou a carnificina em Dresden como trabalhou no recolhimento e na incineração de suas vítimas. Vinte e quatro anos depois publicaria um romance sobre sua traumática experiência, Matadouro 5, um dos mais expressivos sobre a guerra.

Seguindo um velho hábito, na última semana de julho de 1943 o biógrafo Carl Seelig saiu para uma longa caminhada com o escritor Robert Walser, daquela vez pelas ruas de Hamburgo. No dia seguinte a cidade seria arrasada pela Operação Gomorra (42.600 civis mortos e 37.000 feridos). Por que Seelig e Walser nunca tocaram nessa coincidência em suas reminiscências?, perguntou-se W. G. Sebald, que levou sua perplexidade a uma série de conferências que versavam sobre o longo silêncio dos escritores alemães a respeito dos bombardeios aliados, realizadas em Zurique, no outono de 1997, matéria-prima de um livro, Luftkrieg und Literatur, que nos países de língua inglesa virou On the Natural History of Destruction e aqui está saindo pela Cia. das Letras, com o título de Guerra Aérea e Literatura.

Seelig e Walser ainda tinham a desculpa de que eram suíços. De todos os romances alemães publicados até o final dos anos 1940, apenas O Anjo Silencioso, de Heinrich Böll, transmitiu o horror provocado pela visão das cidades arrasadas, registra Sebald. Seu livro é um estudo precioso sobre a amnésia individual e coletiva, com o brilho habitual do autor para discorrer sobre desgraças e ruínas de forma poética, mas sem floreios nem pieguices. Foer foi um dos primeiros americanos a devorá-lo.

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