O inferno é a comida

Você se lembra da dieta do brasileiro médio? Toda errada. O que comíamos com gosto no café da manhã, almoço, lanche e jantar, foram para o paredão, influenciados que estamos por nosso novo confidente, o nutricionista real (com registro ou amigo do amigo) e digital (o popular e gratuito Dr. Google).

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2014 | 02h05

Aquele inocente café com leite (média) e pão com manteiga das manhãs, com um suco de laranja para arrematar, hoje são condenados. Manteiga tem muito colesterol e é proibida para intolerância à lactose. A farinha branca do pão francês tem glúten. Leite quem bebe é bezerro. Suco tem frutose. Uma laranja apenas dá. E devemos chupá-la, não desprezar fibras.

No almoço, o arroz (carboidrato) com feijão (banido por nutricionistas), acompanhado pelo filé (é alcatra?), ovo (colesterol puro!), batata frita (fritura pura!), couve e salada se tornaram uma aberração. Batata, dizem, só tem um efeito no corpo humano: engordar. Até o óleo da salada está diante do pelotão de fuzilamento. Arroz branco? Evite. As sobremesas tradicionais, abacate com açúcar, manga... Condenadas. Doces caseiros, brigadeiro, quindim, arroz-doce, bolinho de chuva, bolinho de fubá. Fora! Até cenoura e beterraba são barradas: têm açúcar.

Lanche: suco ou refresco com bolacha de água e sal, cuja charada, "vende mais porque é fresquinha ou é fresquinha porque vende mais?", não conseguíamos desvendar. Banidos. Muita frutose, muita gordura trans. Groselha na fruta, ninguém ousa. Nem a vitaminada Milani, cujo fabricante, o italiano Celeste Milani, vendeu seu negócio que começou na Mooca em 1955 por R$ 1,00. Devia R$ 25 milhões. Perdeu o lugar na dispensa.

Jantar uma massa, uma sopa (de letrinhas ou minestrone) com pãozinho ou uma pizza com refrigerante é uma heresia. Não se come carboidrato à noite. Não se come nada à noite. Não se come. E viu quanto tem de açúcar e sal num refrigerante? Cerveja? Tem glúten. Uisquinho? Tem glúten.

O ditado "mangia che te fa bene", que nossas avós de origem italiana nos ensinaram como uma mantra ao redor da mesa, tornou-se uma reza caduca. E se hoje nos horrorizamos com representações de banquetes em bacanais romanos, em que se comia com a mão, daqui a séculos vão olhar fotos de uma "famiglia" numa feira, comendo pastel de carne com caldo de cana, e se perguntar: Eram os neandertais?

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Mal de Alzheimer. Se os portadores desta doença tivessem capacidade cognitiva e de mobilização para protestar, logo se uniriam contra a alteração do advérbio em substantivo, que estigmatiza a demência. O mal de Alzheimer. O mal de Parkinson. O Mal! A calamidade, o defeito, o inverso do Bem. Curioso como não se diz mal de câncer, mal de distrofia muscular, mal de gripe, mal de alergia, mal de depressão.

Seria interessante ver pessoas em cadeiras de rodas com Alzheimer, numa passeata, empurradas por pessoas com Parkinson, para protestar contra a presença do Mal na denominação de suas doenças. O problema: se lembrarem das palavras de ordem.

No mundo de hoje, em que devemos ter autocontrole na escrita e fala, economizar palavras e encontrar as precisas, deficiências não são mais deficiências, são necessidades especiais. O aleijado de antes virou paralítico, que virou paralisado, que esteve "preso em sua cadeira de rodas", que virou deficiente, que virou portador de deficiência, até se tornar um PNE, uma "prioridade", uma Pessoa Com Necessidades Especiais. Ou com Mobilidade Reduzida?

A alteração da terminologia não traz mais mobilidade à imobilidade. Talvez seja um caminho para diminuir o preconceito. No mundo todo, o rigor com a terminologia de estados temporários, progressivos ou definitivos de certas características individuais, não doenças, é a tônica do debate sobre o poder do verbo.

O DSM-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), elaborado pelo American Psychiatric Association, classifica transtornos em mentais, por substâncias, esquizofrenia e psicóticos, de humor, ansiedade, somatoformes, factícios, dissociativos, sexuais e de identidade de gênero, alimentação, sono, controle dos impulsos, adaptação e personalidade.

São mais de 390 abusos, demências e transtornos com códigos e diagnósticos como TOC, voyeurismo, de aprendizagem (SOE), asperger, pedofilia, bipolar, ejaculação precoce, exibicionismo, masoquismo, anorexia, bulimia, cleptomania. Só Parkinson e Alzheimer são um mal. Alzheimer está no Apêndice F (código 290-0). É um transtorno. Transtorno de Alzheimer.

Vi uma entrevista com o pequeno e eterno adolescente Michael Fox, ator da trilogia De Volta Para o Futuro, que tem Parkinson. Numa sessão num grupo de apoio, em que vários com doenças variadas se encontravam para amparar uns aos outros, foi sugerido que cada um escrevesse o nome do seu transtorno e colocasse na mesa.

Em seguida, cada um poderia escolher uma doença escrita. Ninguém trocou de doença. Ninguém pegou uma doença que substituísse a sua. Ninguém quis trocar de doença, de mal. Um cego não quis ser surdo, um surdo não preferiu ser paraplégico, que preferiu não ter Parkinson ou Alzheimer. Nos acostumamos com nosso mal, preferimos ele a recomeçar a vida com outro. Ele, conhecemos. Com ele, convivemos. Ele é nosso.

Nossa doença é nós. Elas formam nossa identidade. Aquilo que alguns consideram diferente, deve ser interpretado como nossa identidade. Andrew Solomon escreveu sobre isso.

*

Um paradoxo do Alzheimer é que, quem sofre do transtorno, pode ter uma saúde melhor do que toda a família que não sofre. Seus exames clínicos são de dar inveja: taxa de colesterol, triglicérides, glicemia e pressão, o terror de homens e mulheres contemporâneos, que querem qualidade de vida, velhice feliz. Se as famílias se encolheram, temos medo de envelhecermos. Não teremos muitos para cuidar da gente. Precisamos estar bem, ultra, megassaudáveis.

A taxa de colesterol, triglicérides, glicemia e pressão de quem tem Alzheimer são baixas sabe por quê? Porque não comem. Se esquecem. Se distraem. Se desconcentram. Se dispersam. Não ingerem sódio, açúcar, gordura, glúten, lactose. Ingerem pouco carboidrato. Comer pouco é viver mais. Porém, o cérebro é imprevisível. Caímos no segundo paradoxo: a modernidade nos trouxe medicamentos que prolongam a vida, cuja comida industrializada nos deixa doentes.

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Marcelo Rubens Paiva

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