O inferno do luxo e do sangue

O inferno do luxo e do sangue

Por caminhos diferentes, os espetáculos Hell e O Visitante tratam de desencontros na juventude

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

A arrebatadora interpretação de Bárbara Paz é em si um espetáculo dentro da poderosa encenação que Hector Babenco fez de Hell, de Lolita Pille. Com juventude, beleza e paixão, Bárbara recria um texto. Em polo oposto, com intensidade subterrânea, O Visitante, de Hilda Hilst, traz a surpresa da Cia. Ruminar, de Curitiba, com direção de João Perry, que já integrou o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) de Antunes Filho.

Hell situa-se entre a ficção e o depoimento ao revelar o cotidiano de uma francesa de Paris acostumada ao circuito do luxo fácil, desperdício insano e tédio mortal. Uma gente que, de certa maneira, é irreal. A França é um país de classe média (a Europa é assim) e não se vê tanta ostentação em Montparnasse e Saint-Germain-des-Prés onde mora a inteligência, a boemia e a polêmica. As ruas silenciosas e os edifícios dos bairros 16 e Neully e da Avenue Foch são fantasmagorias. A humanidade comum ouve dizer que "eles" estão lá.

Mas o interesse da obra não é o de mostrar apenas determinado lugar. Hell é aqui ao nosso lado. Só que, de vez em quando, uma pobre menina rica resolve escrachar a cena do crime (ou crème de la crème). Sua contundência fez da obra um sucesso de vendas e elevou Lolita Pille a uma prematura condição de a nova Françoise Sagan de Bom Dia, Tristeza. Em meio a litros de vodca, lotes de cocaína e grifes famosas, uma bomba - ou uma metáfora - explode na região chamada "triângulo de ouro" parisiense (aliás, é lá que fica a Embassade du Bresil).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delírio. No torpor do dia seguinte, a personagem constata que "nós estamos todos mortos na explosão". Conversa delirante, claro. A vida continua, mas o retrato crítico está traçado. Porque ela, a jovem embriagada de tudo, não tem para onde ir, nem para a hipótese filosófica do suicídio aventada por Albert Camus nem para a ironia criativa estrangeira de Henry Miller que, nos anos 30, passou dias de dor e ressurreição na Paris que descreveu em Trópico de Câncer, em que, por outras razões, escreveu a mesma frase: "Estamos completamente sozinhos aqui e estamos mortos." Exagero poético.

Miller estava vagabundeando à procura de si mesmo, como Hector Babenco faria mais tarde no circuito Paris-Amsterdã-Madri antes de se tornar cineasta. A anti-heroína de Hell só atinge alguma humanidade no seu convulso romantismo final. Bárbara Paz agarra o enredo patético de Pille e produz um incêndio emocional. Usando temperamento forte, inteligência artística, admirável técnica física e vocal, faz da peça um momento vital de teatro ao lado de Ricardo Tozzi, que se impõe como o namorado em ruínas. Babenco armou uma partitura cênica de grande requinte visual, sobretudo a iluminação, e sonoro, que confere à representação um alto poder de impacto. Rigoroso artista do cinema e do palco.

Do outro lado desse naufrágio humano - ecoando ao seu jeito os tormentos de Hell -, a Cia. Ruminar faz de O Visitante o cerimonial sobre os interstícios das relações conjugais e filiais. A dramaturgia enigmática de Hilda Hilst é carregada de alusões bíblicas, lampejos de tragédia grega e de García Lorca. Em um impreciso e noturno ambiente doméstico pode ter acontecido um adultério. Sugestão de algo real ou meia verdade, talvez desejo de vingança.

Com um elenco coeso na introspecção, pausas, falas exatas, e apenas sete lâmpadas dicroicas na iluminação em claro-escuro, o encenador João Petry talentosamente oferece algo como música para o quinteto formado por Kassandra Speltri, Lia Machado, Gerson Delliano, Orlando Brasil e a violoncelista Luciana Rosa. Curta temporada para um espetáculo de primeira que lembra romances de Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, mas com a marca original de Hilda Hilst.

HELL

Teatro do Sesi. Av. Paulista, 1.313, 3146-7405. 5ª a dom., 20h. Grátis (5ª e 6ª)/ R$ 10 (sáb. e dom.). Até 19/12.

O VISITANTE

Espaço dos Satyros 2. Praça Franklin Roosevelt, 134, 3258-6345. Sáb. e dom., 18h30. R$ 30. Até 31/10.

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