O incômodo papel de apontar a ruína

Enredo da obra está repleto de pessoas cujo desejo de ser livre acaba por torná-las miseráveis - e aos que vivem do seu lado

William Deresiewicz, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Jonathan Franzen é, por seu próprio relato, uma alma dividida. "Ocorre", ele escreveu certa vez, "que eu me inscrevo em dois modelos totalmente diferentes de como a ficção se relaciona com o público". Um era o modelo Status: arte elevada, gênio, Flaubert; o outro era o modelo Contrato: acessibilidade, prazer, a comunidade de leitores. As duas coisas pelas quais Franzen se notabiliza (além, é claro, de The Corrections - no Brasil, As Correções -, seu best-seller ganhador do National Book Award de 2001) criaram controvérsias públicas que surgiram dessa mesma divisão interior. A primeira foi seu ensaio para Harper"s de 1996 que renunciava ao romance de crítica cultural em favor de "escrever ficção pela diversão e o entretenimento da coisa", embora conseguisse fazê-lo de forma que o deixava parecendo exatamente o tipo de ideólogo com o qual não queria ser confundido. A segunda pode ser chamada de l"affaire Oprah - a revogação do convite a Franzen por aquela figura temível com base numa acusação de elitismo grave, durante o qual ele sobressaiu como um esnobe para as massas e um ignorante para o meio literário. Ele não parecia saber onde queria estar, e, com isso, renunciando tanto aos intelectuais como ao povão, sem agradar a ninguém por querer agradar a todo o mundo, ele conseguiu encalhar numa zona desmilitarizada individual que personificava sua ambiguidade.

Desse conflito e de uma série de cognatos - emocional, político, geográfico, até - Franzen concebeu seu novo livro. Freedom (publicado no Brasil como Liberdade) apoia-se num triângulo amoroso. Walter é "o cara mais amável de Minnesota", um advogado e ativista ambiental que cresceu como filho de uma mãe martirizada e um pai alcoólico e agressivo nas cercanias soturnas da Iron Range. Patty é a esposa que ele conheceu na escola, uma atleta hipercompetitiva que, emocionalmente tolhida por uma infância negligenciada numa família autocentrada de gente bem-sucedida de Nova York, estava à espera de alguém para tomar conta dela. Richard é o curinga, o melhor amigo de Walter: um roqueiro indie carismático e fútil, com um rosto assustadoramente bonito que o deixa parecido com Muamar Kadafi. O casamento desandado de Walter e Patty, a amizade complexamente competitiva de Walter e Richard, o caso amoroso muito adiado, intermitente e absolutamente tortuoso de Patty e Richard - isso constitui o centro da trama juntamente com a história do filho de Walter e Patty, que se vê envolvido, em seu bairro revitalizado de Saint Paul, com a garota trabalhadora da casa ao lado.

Os leitores de As Correções reconhecerão alguns temas-chave: dinâmica familiar e seu impacto em filhos adultos, o Meio-Oeste e o Leste urbano (Walter e Patty se mudam para Washington, D. C.; Richard para Jersey City), os infortúnios da classe média ascendente; o conflito entre dever e prazer. Franzen continua soberbo na exposição da textura psicológica da experiência cotidiana: as oscilações da alma, as lutas pelo poder na vida doméstica, as jogadas de xadrez do comportamento amoroso. Mas se o terreno, e a mente que o mapeia, são aqueles do romance anterior, os contornos são diferentes. As Correções enfoca as relações filiais, Liberdade as românticas, incluindo o caso de Walter com sua assistente indiano-americana bem jovem (nomeada, com um aceno a Nabokov, Lalitha). Em As Correções, contemporâneos (ele nasceu em 1959) ainda estão lidando com seus pais. Em Liberdade, eles estão lidando não só uns com os outros, mas também com seus próprios filhos adultos.

O enfoque numa única família, e a convergência da trama para um jantar de Natal, dá forma à amplitude intelectual do romance anterior. Aqui, um elenco mais frouxamente estruturado de personagens e um esquema cronológico menos definido afligem uma narrativa de extensão comparável com uma sensação de esticamento. A história começa por volta de 1980 e avança, com flashbacks, até 2004, depois serpenteia o resto do percurso até o presente. Franzen parece reconhecer o problema da organização. O romance abre do ponto de vista dos vizinhos de Walter e Patty - uma sequência de 32 páginas com a trama perfeita de um conto - muda para o diário de Patty (escrito por ela a pedido de seu terapeuta), segue com uma longa seção intermediária que é intitulada 2004, mas cobre, na verdade, um período de vários anos, retorna ao diário de Patty, e termina, mais uma vez, da perspectiva de um vizinho.

A arquitetura do livro é impressionante, mas não resolve de fato os problema da dispersão. Falta ao romance o controle de As Correções, como se evidencia também nos materiais da trama. Nada da imaginação travessa do livro anterior. As Correções era sombrio, mas a própria brutalidade de sua candura resultava num humor rude que não está presente aqui. Liberdade fica no nível das passagens menos bem-sucedidas do romance anterior. A julgar pelos dois volumes de não ficção que Franzen publicou desde As Correções - How to Be Alone (2002), uma coleção de ensaios, e A Zona do Desconforto (2006), um livro de memórias -, o novo romance dramatiza toda uma série de conflitos entrelaçados que vão até a compreensão por Franzen de seu lugar no mundo.

Richard, o roqueiro, trava a batalha de Status e Contrato. Celebrado por sua obstinada retidão estética durante os anos de obscuridade por uma coterie de fãs, Richard vê sua identidade implodir após conquistar um sucesso popular inesperado por volta da mesma idade (passando dos 40) e mesma época (as vizinhanças do 11 de Setembro) que Franzen. Acuado por um jovem fã, Richard larga uma peroração exibicionista improvisada sobre a hipocrisia da subversão pop. Os dilemas profissionais de Walter são muito óbvios. Um bilionário texano observador de pássaros quer gastar uma fortuna para proteger sua espécie favorita, a mariquita-azul, adquirindo uma extensão de terras desabitadas em West Virginia, e Walter, vendo uma chance de realmente fazer alguma coisa por uma mudança, concorda em dirigir a operação. (A trama sai diretamente dos próprios compromissos ambientais de Franzen e de sua aglutinação em torno da questão do hábitat aviário, tal como se lê em A Zona do Desconforto, que fala de sua paixão como observador de pássaros.)

O filho de Walter e Patty, Joey, um jovem republicano em formação que se envolve num esquema duvidoso para fornecer peças de caminhão para a invasão iraquiana, triplica a questão de Franzen. Quando se consegue pôr os próprios ideais em prática, eles são desfigurados pelos sistemas nos quais precisam operar. Mas há uma oposição mais profunda em operação aqui também. Pureza ideológica, estética ou alguma outra, também podem ser uma fachada para a misantropia. Recusar-se a se engajar em sistemas pode ser apenas um desculpa para se recusar a engajar-se com pessoas. Por sistema, leia-se, aliás, comunidade. O Homo franzenius é com frequência um solitário. Joey resiste à devoção de sua namorada. A galinhagem de Richard evita a intimidade. Após o colapso de seus planos em West Virginia, Walter se enfurna numa cabana por seis anos. Franzen escreveu sobre seu próprio impulso ao autoisolamento e admite que seu entusiasmo inicial pela natureza foi, em grande parte, um anseio para se afastar de outras pessoas. Na geografia da imaginação de Franzen, comunidade está para solidão como Meio-Oeste está para Nova York, o lugar onde ele cresceu está para o lugar onde agora vive.

A depressão está em toda parte em Liberdade, como está em As Correções. Ela é hereditária, na análise de Franzen, mas não somente isso. Se depressão é agressão voltada para dentro, e raiva é agressão voltada para fora, então mesmo Walter, o paradigma da "amabilidade", tem outra opção, e todo o fiasco em West Virginia, junto com o colapso de seu casamento, se torna uma oportunidade estendida para exercitá-la.

Depressão e raiva: são esses os polos da dialética emocional de Franzen. Alfred e Gary em As Correções, Walter e Patty aqui - todos eles oscilam nesse pêndulo. E assim como a depressão como sentimento corresponde à amabilidade como estratégia social, a raiva corresponde ao oposto de ser amável: dizer a verdade. Esse é o papel autoatribuído a Walter: ser um panaca ou, em outras palavras, ser honesto. Ele é o sujeito que vê através do egoísmo de Patty, na escola, e lhe diz para deixar de manipular Walter. Ele é o sujeito que interpela Walter sobre seus sentimentos pela adorável Lalitha. E ele, é claro, é o artista, o narrador da verdade profissional.

E assim o círculo se fecha, de volta a Status versus Contrato, arte como honestidade brutal versus arte como construção de comunidade. O notável na escrita de Franzen é a maneira como ela consegue operar em ambos os lados da linha divisória. Sua prosa é exemplarmente bonita. Mas a beleza oculta uma profunda raiva política, que tem como mira seu próprio público, a classe média liberal. Franzen é o sujeito que sorri para você toda manhã, mas secretamente o odeia.

Mas a amabilidade e a raiva são igualmente genuínas e, para Franzen, igualmente válidas. Por raivoso que ele seja conosco, ele é igualmente raivoso consigo mesmo. Porque é amável, ele sente as pretensões de ambos os lados: de princípio e concessão, solidão e comunidade, Nova York e Meio-Oeste.

Solidão e autovalorização, raiva ideológica e pureza ideológica: todas convincentes, todas em última análise imaturas. As histórias de Gary, Chip e Denise em As Correções, de Richard e Patty aqui, tratam todas da luta, contra as próprias inclinações e a tendência da cultura, para crescer. Quase só entre escritores proeminentes que atingiram a maturidade nas duas últimas décadas - ou, ao menos, os homens proeminentes -, Franzen se comprometeu com os valores da maturidade: responsabilidade, moderação, trabalho duro, autocontrole. O fato de serem quintessencialmente valores do Meio-Oeste não é, decerto, acidental. O fato de Franzen lutar com eles é o que torna seu drama interior digno de acompanhamento. Quase se pode sentir ele não querendo mais ser um adulto imaturo americano.

Mas maturidade (como Contrato, e amabilidade, e comunidade) é finalmente o que ganha sua anuência, e a grande questão de Liberdade é que ela deve receber nossa anuência política também. O desejo de liberdade, na visão de Franzen, não é nada além de um anseio adolescente de irresponsabilidade e incoerência. O romance está cheio de pessoas cuja liberdade não só as torna miseráveis, como torna miseráveis todas as que as cercam também. A liberdade americana, o romance insiste, é a ruína do mundo, e a liberdade humana é a ruína do planeta. Isso não é uma coisa bonita de se ouvir, e o polemismo prejudica sua realização artística, mas é certamente algo que não conseguimos ouvir com muita frequência. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

WILLIAM DERESIEWICZ É AUTOR DE A JANE

AUSTEN EDUCATION (PENGUIN PRESS 2011)

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