MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

O incansável Paulo Gustavo lança em livro nova versão da saga de Dona Hermínia

TV, teatro, um novo filme no Rio, um livro, ele não para; 'Minha Mãe É Uma Peça' chega às livrarias

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 03h00

Dona Hermínia há tempos deixou de ser a mãe de Paulo Gustavo – mais exatamente, desde que ele criou a personagem que foi para o palco e, depois, ganhou a tela. A Dona Hermínia da ficção vive às turras como ex-marido, detesta a nova mulher dele, uma perua com quem vive uma disputa de gato e rato. “Na realidade, são amicíssimas”, diz Paulo Gustavo. A mãe dele, realmente, é uma peça. Agora, também, um diário. Paulo Gustavo lança terça, 10, no Rio o livro Minha Mãe É Uma Peça, em parceria com Ulisses Mattos e Fil Braz. Lembram-se do final de Minha Mãe É Uma Peça – O Filme? Dona Hermínia vira uma celebridade na TV? Pois agora, meio autoajuda, mas principalmente para esculachar, Dona Hermínia reflete sobre o excesso de peso da filha, sobre as opções de sexo do filho gay. Ela própria fala muito de sexo. “Achei engraçado uma pessoa que não faz sexo ficar falando do assunto”, diz Paulo.

Que Paulo tenha virado uma celebridade, faz parte. É ator, dramaturgo, tem superexposição no teatro, no cinema e na TV. Paulo tem um monte de seguidores no Instagram. Quando corria na praia, meio mundo corria atrás dele, com ele. “Passei a correr na academia.” Sua mãe, afinal, pode falar de sexo – ele travestido de mãe –, mas a Dona Hermínia real não é psicóloga, socióloga coisa nenhuma. Se dependesse dos convites, sua mãe, a verdadeira, não sairia do estúdio, como convidada dos mais variados programas. “A gente cuida muito para evitar que isso ocorra.” Mesmo assim, mamãe, além de ser peça, é muito popular. Tem, seguidores nas redes sociais, não dá conta dos pedidos de selfie quando a identificam no aeroporto. Em dezembro, Paulo Gustavo foi às compras com a mãe, no Shopping Iguatemi, aqui em São Paulo. Criou-se um tumulto tão grande que os seguranças foram lhe segredar ao ouvido se seria preciso acionar um esquema especial para que pudessem ir embora.

É o preço do sucesso, mas também é resultado de muito trabalho. Paulo Gustavo consegue estar na TV com o 220 Volts, maior audiência do Multishow e também assina o roteiro da próxima temporada do Vai Que Cola (Multishow, de novo). Tem também o Paulo Gustavo na Estrada, um reality show que disseca sua rotina. No teatro, 220 Volts está com ingressos esgotados até a perder de vista. Hiperativo virou um sucesso de mais de um milhão de espectadores e Minha Mãe É Uma Peça há muito deixou esse número para trás. No cinema, o recorde de Minha Mãe É Uma Peça também já ficou para trás. Ele iniciou as filmagens de Vai Que Cola – O Filme, no Rio, e em 2016 volta ao set (de cinema) com Minha Mãe 2. Alguma coisa a ver com o livro? “Nada. O livro é só uma brincadeira, uma curtição.” Como sempre, seus tietes, e os de Dona Hermínia, vão amar. 

Bom humor. Só Paulo Gustavo para manter o bom humor com a pesada rotina de vida que vem levando. Ele está no palco com dois espetáculos – 220 Volts e Hiperativo – e houve uma semana recente em que somou aos dois apresentações especiais de Minha Mãe É Uma Peça. Ter pique para estar todo dia no palco não é para qualquer um. Manter as marcações, as falas, também não. “Mas quando eu erro e misturo as coisas, o público adora”, ele conta. O ritmo ficou ainda mais puxado. Na segunda-feira passada, 2, Paulo Gustavo começou a filmar Vai Que Cola. O sucesso da TV vai virar filme, como ocorreu com Minha Mãe É Uma Peça.

Paulo tem acordado às 4h30 da manhã. Às 5h30 já está no set, seja estúdio ou locação. No final da tarde, o carro o apanha e leva para casa. Chega moído, mas o dia ainda não acabou. Para relaxar, assiste a programas variados na TV. Se não está no palco, no fim de semana, arranja tempo para um teatro, que adora. “A última peça que vi foi Através do Espelho, dirigida por Ulysses Cruz e estrelada pela Gabriela Duarte que, a propósito, está magnifica atuando no papel de uma personagem esquizofrênica.” Foi numa correria dessas – um pouco menos, talvez, porque não estava filmando –, que Paulo Gustavo escreveu o livro. Escreveu, em termos. “Tive, como é que se diz, ghost writer. Quem teve a ideia foi meu empresário. Eu contava novas histórias de Dona Hermínia, o Ulisses (Mattos) e o Fil (Braz) escreviam, e depois eu revisava. Ficou bem divertido.”

Como ele consegue manter a criatividade com essa vida louca? “Pois é, boa pergunta. Meu humor se baseia muito na observação. Sou muito antenado, voyeur compulsivo, sempre ligado no que ocorre ao redor, no que as pessoas estão fazendo. Se me isolo, fico seco. No ano passado, aconteceu. Teve um momento em que as ideias secaram, não conseguia pensar numa piada. Terminei fugindo. Fui passar um mês de férias na Austrália, longe de tudo e todos. Lá eu não era o Paulo Gustavo. Encontrava raros brasileiros – não adianta, estamos em toda parte – que me reconheciam. De resto, podia ir à farmácia, ao bar. Observava à vontade. Você vai dizer – mas eram australianos, não brasileiros! E daí? As pessoas são as mesmas em toda parte. Só é preciso botar um molhinho.”

Em São Paulo, no Teatro Procópio Ferreira, 220 Volts segue lotado até o fim do mês. Com sorte, você ainda consegue ingresso para apresentações suplementares, no mesmo local, nos dias 3, 4 e 5 de abril. 

Cada vez mais tem gente querendo ‘usar’ Paulo Gustavo – a grife que ele criou. E no meio de tudo isso, nas horas vagas – quais? – ele ainda arranja tempo para tentar desenvolver um projeto pessoal que talvez tenha começado de brincadeira. Perguntaram um dia se ele não tinha um personagem sério que gostaria de fazer. Paulo Gustavo tirou da cartola o mais improvável dos personagens – São Francisco de Assis. A ideia bombou nas redes e, depois de Roberto Rossellini (Francisco, Arauto de Deus), Michael Curtiz (São Francisco de Assis) e Pier Paolo Pasolini (Gaviões e Passarinhos, com o lendário Totò), não se surpreenda se o ‘poverello di assisi’ aportar em terras brasileiras, em algum intervalo de Minha Mãe É Uma Peça 5 ou 6.

Como ator, ele foi indicado para o Shell por Minha Mãe É Uma Peça. É o primeiro a ironizar – “Devia ser cota, alguma coisa assim. Para ganhar prêmio de teatro, só se for drama.” O preconceito prossegue no cinema. Pois se nem Charles Chaplin, um dos inventores da linguagem – e da indústria – do cinema foi premiado... Seu único Oscar, fora um prêmio especial, foi pela partitura de Luzes da Ribalta, quando o filme finalmente estreou em Los Angeles, em 1972 – 20 anos depois de Chaplin se haver exilado, por causa da lista negra do macarthismo. 

O repórter lembra o caso do francês Guillaume Galienne que, em 2013, ganhou o César, o Oscar francês de melhor filme e ator por Eu, Mamãe e os Meninos, em que representava um travesti no papel de uma mãe dominadora. Dona Hermínia é melhor e mais divertida que a mãe de Galienne e o filme, do próprio ator, roteirista e diretor, perde para o do brasileiro de André Pellenz.

Minha Mãe É Uma Peça – O Filme foi indicado em três categorias para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro no ano passado – melhor roteiro adaptado, atriz coadjuvante e melhor comédia. Não ganhou em nenhuma. Paulo Gustavo diz que não se importa. “Prefiro o carinho do público a colocar uma estatueta na estante.” Pode ser que esteja sendo sincero, mas qual é o artista que não gosta de reconhecimento? Uma coisa não se pode negar – a capacidade de Paulo Gustavo como ator. Em 220 Volts, ele retrata várias facetas do universo feminino. Em Vai Que Cola, faz malandro – Valdomiro Lacerda – que foge da polícia e vai parar numa pensão do Méier. É duro para ele viver no subúrbio e, mais ainda, aguentar as provocações do criado insolente Ferdinando, interpretado por Marcus M.

Para Paulo Gustavo, seu humor é feito de observação. Tudo o que ele coloca no palco, na tela é roubado do mundo real. Ele começou por roubar a própria mãe, e colocou muita coisa dela na personagem Dona Hermínia, que virou o fenômeno que todo mundo sabe. A última de Dona Hermínia é virar personagem de livro, por obra e graça do filho pródigo e de seus dois amigos e colaboradores. Minha Mãe É Uma Peça (o livro) sai pela Objetiva. De cara, Dona Hermínia filosofa – “Minha vida daria um livro.” E começam os capítulos – um guia de Dona Hermínia sobre como criar os filhos, sua dissertação sobre preconceito – “Você ainda vai ter um!” –, a luta contra a balança (da filha Marcelina), um “Vamos falar de sexo”, etc.

Comece a ler Minha Mãe É Uma Peça – antes, é preciso comprar, claro. Você vai ouvir Dona Hermínia pela voz de Paulo Gustavo. “Gente, quem lê livro hoje em dia? Só gente fina, com estudo. Pra muita gente ler, virar sucesso em livraria, entrar pra lista dos mais vendidos, tem que ter história bem boa mesmo. Senão não desperta em ninguém a vontade de ler. Acha que é fácil? Você tem que ir aos poucos pra ver se sua vida daria um livro mesmo. Acompanha comigo. Primeiro você pensa se sua vida daria uma peça. Porque peça é mais barato de fazer e tira pouco tempo de quem vai ver.” A vida de Dona Hermínia passou no próprio teste. Virou peça, filme e só agora livro. A mãe é a dele, Paulo Gustavo, mas pode ser a sua. “Mãe dominadora é tudo a mesma coisa”, ele crava. Essa ‘universalidade’ ajuda a entender a aceitação de Dona Hermínia.

MINHA MÃE É UMA PEÇA

Autor: Paulo Gustavo (colaboração de Ulisses Mattos e Fil Braz) 

Editora: Objetiva (140 págs., R$ 29,90)

VÁRIOS PROJETOS

 Cinema

Minha Mãe É Uma Peça 2. Filmagem no ano que vem

Vai Que Cola. Em processo de gravação, no Rio

São Francisco de Assis. Desenvolvimento de projeto

 TV

Vai Que Cola. Roteiro da próxima temporada

220 Volts. Maior audiência do Multishow

Paulo Gustavo na Estrada. Reality da rotina do ator

 DVD

Hiperativo. 50 mil cópias já vendidas

 Teatro

220 Volts. No Teatro Procópio Ferreira (SP). Esgotado

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