O implacável retrô

O crítico britânico Simon Reynolds fala sobre o impacto de ontem na música de hoje

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Daqui a mil anos, quando habitantes da lua descerem às profundezas do submerso planeta Terra em busca de provedores de internet, um dos primeiros pontos arqueológicos a serem discutidos talvez seja a curiosa obsessão da humanidade pós-Google com o próprio passado. Musicólogos perguntarão: por que o hit Fuck You de Cee Lo Green fez tanto sucesso em 2010 se soa como se tivesse sido feito nos anos 70? Por que uma cantora inglesa causou tanto furor quando morreu em 2011 se um de seus maiores hits foi chupado de uma canção de Marvin Gaye e Tammi Terrell, de 1966? Ou talvez até por que tantos festivais brasileiros e mundiais ressuscitaram bandas grunge dos anos 90 para suas programações em 2011?

São questões que o proeminente crítico Simon Reynolds faz em seu novo livro Retromania, lançado este mês nos Estados Unidos e amplamente discutido na internet. De Los Angeles, Reynolds falou ao Estado sobre tempo, espaço e o fator passado.

Você escreve sobre como o YouTube transformou-se em um monumental arquivo coletivo. De que forma isto muda as coisas?

O YouTube funciona de maneira comparável ao jeito que fãs trocavam raridades antigamente. Eles se conheciam através de anúncios em revistas e trocavam material obscuro pelo correio. Agora eles fazem isto pelo YouTube, com muito mais facilidade. Assim, hoje em dia é possível acessar o passado de uma maneira sem precedentes. Quando eu era jovem, o passado estava em lugares específicos. Estava em bibliotecas, em coleções de revistas antigas, em microfilme, que era trabalhoso de conseguir. Não se encontrava um vídeo de Bowie ou T-Rex ao vivo na TV britânica sem suor. Assim, a relação de gerações anteriores com o passado era outra e por isso as pessoas se concentravam no presente.

E qual o efeito desta disponibilidade de informação nos músicos de hoje em dia?

Um dos argumentos do livro é que as pessoas vivem com a sensação de que o passado e o presente estão próximos um do outro. Você pode entrar no YouTube e ouvir um remix que acabou de ser postado. Mas você pode pular para algo feito nos anos 70 ou 80 a qualquer minuto. As bandas novas estão expostas a isto. Antigamente, elas eram influenciadas por coisas contemporâneas. Pense no Police. A música deles dialogava com o movimento reggae, que acontecia simultaneamente. Bandas de hoje em dia poderiam fazer isto. O equivalente seria buscar referências no grime da Inglaterra ou no funk carioca. Mas existe a mesma probabilidade destas bandas se basearem em música obscura dos anos 70 ou funk e blues pré-Segunda Guerra porque a distância entre o passado e o presente é a mesma.

Mesmo assim existe muita música contemporânea que você admira.

Existe muita gente interessante fazendo trabalhos interessantes. Alguns dos meus músicos favoritos dos últimos anos parecem estar vagando pelo passado. Mas não houve um tipo de som que definiu a década, como o hip hop fez nos anos 80 e 90. Se você pensar em antigamente, até a forma de diálogo entre os estilos mudou. Nos anos 90, o house foi adaptado por bandas de rock. Até no final dos anos 90 houve o nu metal, que era o encontro do rock com o rap. Isto mudou. Pense em uma das bandas mais famosas na América hoje em dia, o Mumford & Sons. Eles fazem um revival de um tipo específico de bluegrass que já foi redescoberto umas três ou quatro vezes nas últimas décadas. Há uma série de bandas como o Fleet Foxes, que se baseiam no fim dos anos 60, no som de bandas como Crosby, Stills and Nash. Em vez do futuro, os músicos se preocupam com o que foi feito no passado. Os melhores conseguem dar uma cara diferenciada a isto. Mas a maioria só copia.

Um desses que se salvam é o Ariel Pink, que faz pop lo fi dos anos 80 e é discutido no seu livro.

Ele é ótimo. Mas sempre me pergunto o que ele está fazendo para o futuro. Será que a música dele conseguirá influenciar alguém no futuro? Existe uma banda famosíssima no Reino Unido atualmente que se chama The Horrors. O som deles tem influências óbvias e parte do prazer de ouvi-los é conseguir apontar estas influências. Uma jornalista até escreveu que o gênero deles é o passado, o que é uma forma interessante de colocar o som e na sequência disse que "o passado é nosso para a colheita". Essa metáfora me fez pensar, pois qualquer bom fazendeiro lhe dirá que antes de toda colheita vem a plantação. E o que estamos plantando para o futuro é uma questão a ser ponderada. Eu adoro o Ariel Pink e a maneira exuberante com que ele entrelaça o pop dos anos 70 e 80, mas não acho que ele faz algo para o futuro.

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