Marcos de Paula/AE - 03/02/11
Marcos de Paula/AE - 03/02/11

O império contra ataca

Por tudo o que diz o presidente da Universal Music, José Eboli, é melhor pararem de decretar a morte das gravadoras

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

As apostas eram de que elas só chegariam ao século 21 respirando com a ajuda de aparelhos. E então, alguns anos a mais, não sobraria nada. Todas seriam mortas e sepultadas pela internet - o grande propulsor de criação e distribuição na nova ordem musical. "Engano", ouve-se agora, lá do front. O império das gravadoras, nas palavras do presidente da Universal Music, José Eboli, não está destruído. Primeiro porque as companhias estariam aprendendo a não ser mais só gravadoras. E segundo porque, como diz o presidente, os artistas que querem as grandes massas não têm outro caminho a não ser se submeter aos velhos esquemas das grandes gravadoras.

Músicos ainda precisam de gravadora?

Não há no mundo nenhum caso de artista grande que tenha começado na internet e se mantido lá. Veja no Brasil Cine, Restart, NXZero. Para ter uma carreira sedimentada, eles ainda precisam das gravadoras. Um bom exemplo de que só a internet não basta ao artista é o MySpace. Esse site surgiu, ganhou força e depois só caiu. E hoje o MySpace não acontece mais. O artista, para ficar grande, precisa de um agenciamento para tocar em rádio, aparecer em TV, ter espaço nos jornais. E isso ele só tem em uma gravadora.

Mas o que dizer de bandas indie como o Vampire Weekend,por exemplo, que lotam casas de shows sem gravadoras? As pessoas todas sabem cantar aquelas músicas que nunca tocaram em rádio. Não começa a ficar perigoso para vocês quando esses moleques aprendem a fazer tudo sozinhos?

Mas isso sempre houve, esses grupos que você fala conseguem fazer esse movimento - mas é o que chamamos de nicho. Isso funciona para um público de 700 pessoas, todas cantando juntas. Mas quantas vezes contratamos bandas assim e aquilo não saiu dali? Na maioria das vezes, aquilo nasce e morre ali mesmo.

Casa cheia não é sinônimo de sucesso?

Não, é algo a ser observado. O que realmente funcionou sem gravadora foram movimentos regionais como o da banda Calypso. O Calypso nunca precisou de gravadora. Ele nasceu, cresceu e continua muito bem assim. Isso se explica no passado. As gravadoras abandonaram o Norte do País com a crise da pirataria, que fechou muitas lojas de CDs. Sem essas lojas, deixamos de trabalhar por lá.

Isso não foi um erro?

Foi um erro, mas a gente não tinha saída.

As gravadoras não poderiam ter aberto suas próprias lojas?

Todas as vezes que alguém tentou fazer isso, foi um fracasso. As gravadoras nunca foram capazes de explorar venda em varejo. É como uma gravadora criar uma empresa de agenciamento de show. Por outro lado, a produtora Live Nation, por exemplo, tentou dar uma de gravadora e também se deu mal. Contratou a Madonna e o Robbie Williams e teve sérios prejuízos. Não tem jeito, é cada um no seu quadrado.

De inimiga a web pode passar a ser aliada de vocês?

Ainda há problemas. 95% dos downloads no mundo são piratas. Então é importante fazer lobbies junto aos governos dos países para que possamos controlar isso. É um aliado para fazermos descobertas. Bem ou mal, vendemos pela web. O Spotfy é o maior player na Europa, totalmente baseado no conceito do streaming (ouvir música sem baixá-la). O download (baixar música) está morrendo. As pessoas cada vez mais querem ter o acesso por streaming, que o Spotfy mostra de maneira clara. A indústria está em declínio, as vendas do CD caem e as vendas pela web ainda não cobrem essa perda. Mas estamos agora fazendo novas parcerias.

Vai chegar o dia em que vocês não venderão mais CDs?

Sim, vamos chegar a isso. Há duas semanas, para dar um exemplo, foi anunciada nos EUA a morte do DVD. A indústria fonográfica foi o boi de piranha, a primeira a ser afetada com a revolução digital. O pessoal de DVD então não quer perder como nós perdemos, e aí resolveram criar uma plataforma onde todos os filmes serão disponibilizados para downloads e streaming, depois de serem lançados no cinema. Veja como era antes o caminho dos filmes: ele era lançado no cinema, um tempo depois ia para locação, então passava a ser vendido em lojas e depois faturavam ainda na TV. O mesmo filme tinha uns dois anos de ganho comercial. Na medida em que a banda larga cresce, muda tudo. Como a pirataria faz o filme ir direto do cinema para o camelô, como aconteceu com o Tropa de Elite, ninguém quer mais esperar. As distribuidoras então se uniram e criaram uma plataforma única para o público baixar os filmes.

O termo "gravadora" não ficou ultrapassado?

Sim. Estamos lançando em março, por exemplo, o segundo disco solo do Marcelo Camelo. Ele gravou tudo sozinho. O que nós vamos fazer é o marketing e a distribuição dos CDs. O que fazemos agora se chama entretenimento.

Mesmo com revolução digital é preciso pagar "jabá" para colocar artistas em rádios e TVs?

Não. Olha, antes, quando as gravadoras tinham dinheiro, o que fazíamos era oferecer uma entrevista com fulano para um jornalista em tal país e bancar a passagem para ele ir lá. Era uma parceria que interessava às duas partes. Hoje, como não temos mais esse dinheiro, os veículos é que vêm atrás da gente. Conseguimos colocar o Justin Bieber em vários programas sem gastar nada, por exemplo.

E nas rádios? Não se paga "jabá" para que um artista seja mais executado?

Não fazíamos isso antes, e hoje não fazemos até por que não temos recursos. Quem cuida disso, da execução em rádios, é o empresário do artista. As rádios antes pediam mil coisas, mas o lado bom de ter ficado pobre é que ninguém mais acha que você tem dinheiro (risos).

Ídolo, para dar certo, tem de aparecer na mídia a qualquer custo?

Isso faz parte sim, mas deve ser uma estratégia bem cuidada. Veja o Roberto Carlos. Há décadas ele se mantém tranquilo, aparece um pouco mais no final do ano e não sofre de superexposição. A cantora Paula Fernandes, que estamos lançando agora, tem que aparecer mais, tornar seu rosto conhecido, mas vai chegar o momento em que ela vai precisar se recolher. Ou então vai acontecer o que aconteceu com os Jonas Brothers. Imagina que há dois anos eles vieram ao Brasil e lotaram o Estádio do Morumbi. Um ano depois eles voltaram e fizeram uma turnê totalmente fracassada. Como pode um artista em um ano subir e descer assim?

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