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O impensável possível

Trump tuitou provocações a uma corrida nuclear com a maturidade de um pré-adolescente

Lúcia Guimarães / NOVA YORK, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2016 | 03h00

O interminável 2016 ainda marcou, em meio às festividades natalinas, o 25.º aniversário do colapso da União Soviética. Sim, o evento que o Ocidente comemorou como o triunfo da democracia liberal ou, como prefere Vladimir Putin, foi “a maior catástrofe política do século 20”.

Uma outra manchete pouco notada coincidiu com o aniversário. O Estado da Carolina do Norte, declarou o cientista político Andrew Reynolds, não pode ser mais classificado como uma democracia. E quem é Reynolds, além de um acadêmico nativo do Estado? Ele é um especialista do Projeto de Integridade Eleitoral, uma iniciativa internacional que já monitorou 213 eleições em 153 países.

Na última década, Reynolds trabalhou com o dinamarquês Jorgen Elklit para elaborar um método de avaliação de eleições. Pelo critério aplicado a outros países, a Carolina do Norte pode ser comparada a Cuba ou Serra Leoa.

Uma combinação perversa de mudança das regras do jogo eleitoral, que deu aos republicanos controle desproporcional do Legislativo e novos obstáculos ao voto de minorias culminou com a manobra extraordinária em novembro: Derrotado nas urnas pelo democrata Roy Cooper, o governador Pat McCrory montou, com ajuda de seu Partido Republicano, um golpe legislativo para tomar do próximo governador várias prerrogativas do cargo, tornando Cooper um refém virtual da oposição.

O fato de que a Carolina do Norte já foi uma ilha liberal no Sul conservador não causa choque a Yascha Mounk, um jovem historiador alemão e especialista em sistemas de governo da Universidade de Harvard. Mounk também criou um medidor de democracia, em colaboração com o cientista político Roberto Stefan Foa, da Universidade de Melbourne, na Austrália.

Em julho, enquanto a convenção republicana parecia mais uma arena de gladiadores clamando pela prisão de Hillary Clinton, Mounk e Foa publicaram o artigo A Desconexão Democrática, uma observação assustadora do declínio da apreciação pela democracia, nos EUA e na Europa Ocidental. Eles se debruçaram sobre pesquisas feitas entre 1995 e 2014. Usaram quatro medidas de avaliação:O apoio dos cidadãos à democracia como regime; o grau de apoio a instituições-chave da democracia, como direitos civis; disposição de defender causas dentro do regime democrático; e abertura a alternativas autoritárias, como um regime militar.

Os pesquisadores levantaram um cenário pessimista para quem acredita que a democracia, uma vez experimentada, se consolida. O mundo pós-União Soviética, nas democracias do norte, é um mundo de descrença progressiva nas instituições políticas, aumento de abstenção eleitoral, cinismo e defesa de questões de identidade individual. A democracia vive uma crise de legitimidade.

Uma das revelações do artigo é o crescente desapego de millennials, a geração adulta nascida há menos de 30 anos, aos valores democráticos. De certa forma, o choque de gerações se inverteu. Há mais apatia política entre millennials do que entre baby boomers, os nascidos no pós-guerra. E, ao argumento de que os jovens estariam mais engajados em ativismo não convencional, os autores oferecem dados mostrando que, ainda assim, eles continuam atrás de seus pais em participação política dentro e fora do sistema.

A queda do Muro de Berlim, em outubro de 1990, pegou de surpresa, não só os alemães dos dois lados, como políticos, historiadores e jornalistas em todo o mundo. Com a eleição presidencial nos EUA e o retrocesso nacionalista em países europeus, 2016 expôs a complacência na ideia de que a democracia triunfa porque criou raízes. No Natal em que o chefe de Estado eleito pelos norte-americanos tuitou provocações a uma corrida nuclear com a maturidade de um pré-adolescente, o impensável passou a ser possível. 

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