O impasse da palavra e a eloquência das imagens

O impasse da palavra e a eloquência das imagens

Felipe Hirsch e Daniela Thomas falam de seu processo conjunto de trabalho, que leva dramaturgia ao cinema e cortes cinematográficos às peças de teatro

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

As imagens projetadas no cenário de Não Sobre o Amor (2008), o mais rebuscado trabalho da parceria entre Daniela Thomas e Felipe Hirsch, alarmaram a dupla - a interação com a cena ganhava proporções a ponto de se transformarem em personagens. O cinema despontava assim como um passo natural.

Hirsch recebeu o convite para dirigir Insolação em 2001. "Convidei o Will Eno para escrever o roteiro e sua primeira versão logo empolgou a Daniela, que aderiu ao projeto", conta o diretor, iniciando um longo processo de preparação. A trama precisava apresentar a mesma pesquisa realizada pela Sutil Companhia de Teatro ao longo de seus espetáculos, que são memória, amor e perdas. "Por conta do Não Sobre o Amor (talvez a mais importante produção da Sutil), estávamos imersos na literatura russa, especialmente a que trata de relações amorosas", lembra Felipe, que selecionou cinco contos de autores como Chekhov, Turgeniev e Pushkin como ponto de partida.

Os textos inspiraram Eno e Sam Lipsyte, que construíram uma série de histórias de amores inalcançados. "O filme realmente encorpou quando a Daniela sugeriu que a ambientação fosse em Brasília, uma cidade também utópica e, em muitos aspectos, irrealizada." Assim, a capital brasileira ofereceu seus enormes espaços desabitados ou abandonados, por onde perambulam homens e mulheres presos a alguma história de amor.

Praticamente rodado apenas durante o dia, sob a intensa luminosidade do cerrado, o filme acompanha os passos de Andrei, uma nostálgica figura - uma espécie de narrador - que testemunha todos os outros conflitos da trama. O personagem é vivido por Paulo José, considerado ideal para o papel.

"Depois de ler o roteiro, Paulo aceitou participar imediatamente e, quando começamos a discutir aspectos da história, ele revelou uma intimidade com a trama muito maior que a minha", recorda-se Hirsch, que logo descobriu o segredo do ator. "Segundo ele mesmo me disse, Insolação retoma temas que ele tratou no início de sua carreira, quando filmou com Domingos Oliveira."

O impasse da palavra, como define Daniela Thomas, serviu como guia para a condução do roteiro. "E, para que o resultado fosse realmente o que buscávamos, decidimos não fazer nenhuma concessão", garante ela. O que isso significa é que Insolação não apresenta uma narrativa linear, mas uma sucessão de confissões feitas em um local árido, torturado pelo sol e congelado arquitetonicamente.

Cinéfilos inveterados, Daniela e Hirsch encontraram inspiração em seus mestres, como o japonês Yasujiro Ozu (1903-1963), cineasta que registrou com sutileza as banalidades do cotidiano. "Buscamos especialmente as principais características da fase final de sua carreira", comenta Hirsch.

Em Insolação, a influência é notável em uma das melhores cenas: o quiosque para o qual o personagem de Paulo José busca inutilmente tomar café. A partir do ponto de vista do dono do bar, a câmera se posiciona dentro do espaço, focando a janela aberta do quiosque que apresenta o mesmo contorno da tela de cinema. "Decidimos ainda fazer o corte seco, ou seja, a cena de uma janela pula para outra, onde estão outros personagens", conta o diretor.

A convivência com Paulo José, aliás, aumentou a fila de grandes atores que trabalharam com a dupla, como Paulo Autran (O Avarento, último espetáculo do ator, em 2006) e Fernanda Montenegro, no monólogo Viver Sem Tempos Mortos, no ano passado). "Todos vivendo uma fase sublime de sua carreira", observa Hirsch.

PONTOS-CHAVE

O Castelo do Barba Azul

Visualmente impressionante, a ópera montada em 2006 trazia uma leitura sensível da peça de Bártok. Já neste caso, a dupla conseguiu um belo resultado com o jogo entre projeções e espelhos, que se aprimoraria nas peças seguintes.

Os Solitários

Uma mistura de humor com violência pouco vista no palco - a partir da trajetória de uma família disfuncional, o irônico texto do americano e Nicky Silver reuniu, em 2002, Marieta Severo e Marco Nanini em uma boa dose de humor negro.

A Morte do Caixeiro Viajante

Nanini voltou a trabalhar com Felipe Hirsch e Daniela Thomas em 2003, no clássico de Arthur Miller, em que o drama da família Lohman se desenvolve em uma casa aberta.

Temporada de Gripe

Empolgado com o que considera uma das estruturas de texto mais originais que já tinha lido, Hirsch apostou, também em 2003, na desconstrução do amor proposta pelo autor americano. A destruição era visível, aliás, também na montagem, com a iluminação tornando-se mais fria e objetos do cenário começando a sumir.

Avenida Dropsie

A partir das histórias de um dos gurus do grupo, Will Eisner, o espetáculo foi montado em 2005, com impressionante cenário de Daniela, que reproduziu com fidelidade a avenida Dropsie de Eisner, com direito a chuva em cena aberta.

O Avarento

Com um cenário que lembrava caixas de uma trupe que se apresenta ao ar livre, foi a última peça de Paulo Autran.

Não Sobre o Amor

Baseada em uma relação epistolar, a peça montada em 2008 revelou um o alto grau criativo de Daniela Thomas, que criou um cenário compacto, no qual a posição dos móveis não respeitava a tradicional ocupação, espalhando-se pelas paredes e pelo teto. Também a encenação de Hirsch era sensível ao tratar de amor, solidão e exílio.

Viver Sem Tempos Mortos

Um escasso cenário privilegia o talento de Fernanda Montenegro como Simone de Beauvoir.

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