''O ideal é o romântico cético''

O historiador Rüdiger Safranski dirige, desde 2002, um programa de televisão de grande influência na Alemanha, Quarteto Filosófico. Ao lado de Peter Sloterdijk, ele discorre com desenvoltura sobre assuntos áridos, como a revolução cultural ocorrida em seu país no século 18 com o surgimento do Romantismo. O tema, aliás, inspirou um de seus mais importantes livros, Romantismo - Uma Questão Alemã (tradução de Rita Rios, 380 páginas, R$ 56), lançado agora pela Estação Liberdade.

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Com uma linguagem cristalina, Safranski revela as diversas influências impostas pelo Romantismo, uma revolução cultural em uma Alemanha estagnada e ainda pós-feudal. O assunto é tema de uma palestra amanhã no Instituto Goethe. E também da seguinte entrevista ao Estado, realizada por e-mail.

Não fossem as limitações sociais e políticas (ou seja, ser uma nação provinciana e não unificada), a Alemanha do século 18 não teria mesmo reais condições de alimentar o Romantismo?

O Romantismo alemão por volta de 1800 foi uma inovação no pensamento, quase uma revolução mental. Seu foco estava na descoberta da riqueza subjetiva - fantasia, sonhos, o subconsciente, especulações filosóficas e reflexão, afeição à natureza, etc. Tudo isso aconteceu durante e após a Revolução Francesa, que trouxe uma emancipação subjetiva, no sentido político. Uma revolução política dessa forma não ocorreu na Alemanha feudal fragmentada e provinciana. Em vez da revolução política ocorreu a revolução mental ou do pensamento. O Romantismo transferiu então essas novas qualidades sentimentais também para a nação e o povo, no progresso da história. Os românticos começaram a juntar músicas populares e contos de fadas. Depois de terem descoberto o inconsciente do indivíduo, eles também queriam se aproximar do inconsciente coletivo, dos sonhos e das fantasias do povo. Desta forma, eles criaram um consciente da identidade nacional. Mas, em geral, eles ainda não eram nacionalistas. Isso veio bem mais tarde.

O que distinguia o romantismo alemão do europeu?

Havia semelhanças. Essas estavam relacionadas ao naturalismo, à importância dada à fantasia. Em qualquer lugar o Romantismo foi e é um movimento contrário ao Realismo vazio. O Romantismo não é contra o esclarecimento ou a iluminação, mas também não se satisfaz com aquilo que se deixa esclarecer constantemente. O Romantismo é apaixonado pelo segredo e procura achar o misterioso. No Romantismo inglês estavam em foco o então recém-descoberto naturalismo e a elucidação da heroica Idade Média (Walter Scott), enquanto na França o Romantismo era quase sinônimo do aspecto religioso cristão. Só mais tarde o Romantismo apresentou conjuntura: após a Restauração de 1815, ele foi praticamente antirrevolucionário (como Chateaubriand). Nesse contexto o Romantismo alemão era mais amplo. Apesar de também apresentar tendências religiosas, continha igualmente modernos aspectos revolucionários e subjetivos até chegar ao que mais tarde denominaríamos de Surrealismo.

O Romantismo permitiu uma abertura para o reconhecimento do individualismo. Assim, é possível afirmar que as nuances totalitárias foram consequências inevitáveis na Alemanha?

A abertura do Romantismo para o individual primeiramente aparenta ser antitotalitária. Os jovens românticos (Schlegel, Novalis, Tieck, entre outros) recusaram qualquer tipo de conformismo. As fantasias políticas inicialmente também eram bastante liberais, republicanas. Quando os românticos então descobriram a "alma popular" e a declararam romântica, chegou a "reviravolta" nacional, mais no sentido coletivo. Foi a partir desse ponto que os nacionalistas se ligaram aos nacional-socialistas. Isso não foi possível sem a falsificação dos impulsos originais. Portanto não existe uma consequência inevitável que leve ao Totalitarismo. Não devemos esquecer que o nacional-socialismo, com sua ideologia de raças, foi produto de uma "pseudo" ciência natural, do biologismo e da aplicação de uma perspectiva "zoológica" à humanidade. Isso nada mais tem a ver com Romantismo, se tratando mais de um crasso/grosseiro movimento contrário ao Romantismo. "Romântico", entretanto, é um relacionamento sonhador, também sentimental com a política. Não é fácil para os românticos tratar do que hoje chamamos de "política real". Eles preferem uma política dos sentimentos e depositam muita confiança nas personalidades carismáticas. Portanto eles realmente são suscetíveis ao messianismo político. Mas também existem consequências políticas muito produtivas do Romantismo. Os movimentos ambientais e em defesa do meio ambiente, que primeiramente chegaram ao ápice na Alemanha, têm suas raízes na tradição do amor à natureza romântica.

Boa parte da história da arte poderia ser entendida sob o prima da tensão entre sensibilidade romântica e histórica?

Como contraponto, eu não colocaria a sensibilidade "histórica", mas sim o pensar de "finalidade econômica". Os românticos tinham sensibilidade histórica, principalmente os alemães, em alto grau. Eles adoravam a "profundidade" histórica, o eco de tempos passados. Os românticos adoravam o distante, no sentido espacial (o exótico), mas também o distante no sentido temporal. Os românticos procuravam pelos mitos antigos de anos atrás, contos de fadas, canções antigas, etc. Mas os românticos tinham um entendimento orgânico de História. História é algo que "cresce", não algo que é feito como uma "coisa". Para os românticos, a História era um organismo que pode ser sentido, ao qual se pertence e com o qual, portanto, também se pode interagir, mas somente se a alma desse organismo for sentida. Isso é entendimento romântico de História.

O Romantismo foi a maior mudança no pensamento ocidental em todos os tempos, sugeriu Isaiah Berlin em 1965.

Isaiah Berlin tem razão sob a condição de que Romantismo seja entendido como a descoberta do ser humano como criador do próprio mundo. Nunca antes o posicionamento do ser humano como centro da criação havia sido pensado de forma tão autoconfiante/consciente de si e sagaz. Aliás, com todas as consequências: o objetivo, tudo aquilo que une o coletivo, o senso comum, a norma eram desvalorizados ou relativizados. Para mim, disso resulta: o Romantismo é maravilhoso, mas também é necessário existir o contrapeso do Racionalismo nu e cru. É sempre melhor viver em vários mundos, não apenas em um só. Isso também vale para o pensamento. Para mim, o romântico cético é o ideal!

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